Tiroteios transformam os principais trajetos da cidade em rotas do medo

Violência nas vias expressas, como Linha Amarela e Vermelha, causam pânico em motoristas

Por O Dia

Rio - O bancário Sandro Gomide (nome fictício) percorre diariamente uma rota de medo: pela manhã sai de sua casa, na Barra da Tijuca, e atravessa a Linha Amarela até o acesso à Linha Vermelha, no bairro de São Cristóvão, onde deixa sua esposa no trabalho. Depois, segue pela Avenida Brasil em direção à Penha, onde, um tanto estressado, cumprirá seu expediente. Ao fim do dia, o percurso inverso dá o tom da agonia para chegar em casa. Mas não são os congestionamentos os motivos da irritação. É toda sorte de criminalidade praticada nessas vias.

Motoristas relatam ter menos medo da Avenida Brasil%2C mas a via tem alto índice de casos de roubo de carros e de cargas da cidadeSeverino Silva

O nome do personagem foi trocado, a pedido do próprio, mas o drama é bastante real. Nos últimos três anos, ele garante já ter visto de tudo um pouco. Desde interdições na Linha Amarela por conta de tiroteios na Cidade de Deus — como a que fechou um trecho na última semana, apesar da ocupação da Polícia Militar — até ‘bondes’ de bandidos armados na altura de Bonsucesso. Os 25 quilômetros da via, margeados por 20 favelas, sendo a maior parte na Maré, irradiam insegurança. “A Linha Amarela não tem hora para me causar medo”, confessa o motorista.

Mas é do entroncamento com a Linha Vermelha, na altura da Cidade Universitária, que ele carrega pavor. O trânsito pesado no local já foi palco, segundo ele, de circulação de homens fortemente armados, em conflito com militares do Exército que ocupavam o conjunto de favelas da Maré. Os criminosos teriam saído das comunidades Baixa do Sapateiro e Vila dos Pinheiros, as mais próximas ao asfalto. “É rota de fuga, de circulação de motos e com incontáveis saídas. Eu, motorista, não tenho para onde correr”, desabafa ele sobre a via, evitada, inclusive, por agências de viagens. Em 2013, um turista paulista foi assassinado ao entrar por engano na Baixa do Sapateiro.

Nessas estradas, até mesmo a simples compra de uma água mineral ou de um biscoito pode gerar problemas. Policiais da 21ª DP (Bonsucesso) garantem que registros de roubos de veículos feitos por criminosos que se passavam por ambulantes já foram feitos. De todas as vias, é a Avenida Brasil que os motoristas apontam como a que amedronta menos. Mas não que ela apresente menos perigo. É por ali que ocorre boa parte dos roubos de cargas e carros da cidade que têm como destino, na maioria das vezes, os Complexos do Chapadão e Pedreira, na Zona Norte.

Interdições são rotina e expõem motoristas ao risco

No sábado, a Avenida Brasil voltou a mostrar a sua periculosidade. Após a morte de um traficante em Parada de Lucas, na altura da Passarela 19, a via chegou a ser interditada por 40 minutos. Os estampidos que podiam ser ouvidos ao longe fizeram com que motoristas voltassem na contramão, e alguns carros chegaram a ser abandonados. Em agosto, protesto de moradores que acusavam policiais por troca de tiros em Guadalupe fechou a via por mais de meia hora.

No último dia 14, foi a vez da Linha Amarela se tornar palco do tormento: por volta de 20h, durante o rush, a via foi fechada pela Polícia Militar, em decorrência da troca de tiros entre bandidos e homens do Batalhão de Operações Especiais (Bope), no Complexo da Maré. As pistas no sentido Fundão e Barra da Tijuca ficaram fechadas por cinco minutos. No mesmo dia, um jovem foi atingido na perna após troca de tiros naquela região.

Nas redes sociais, quando buscam-se hashtags com os nomes das vias, pode-se ter uma dimensão do que elas inspiram. Em vários posts, internautas alertam uns aos outros quanto ao risco de passar por ali nos mais diversos horários.

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