Por nicolas.satriano

Rio - Em cinco anos, a Corregedoria da Polícia Militar abriu pelo menos 120 procedimentos para apurar furto, roubo e extravio de armas de paióis da corporação. A estimativa é de que a PM tenha até 65 mil armamentos nas Reservas Únicas de Materiais Bélicos (Rumbs) das 56 unidades em todo o estado.

O levantamento feito pelo DIA identificou que os batalhões próximos a comunidades onde há guerra do tráfico foram os que mais apresentaram registros enviados à corregedoria.

Como O DIA revelou segunda-feira, com exclusividade, há 457 armas desaparecidas, entre elas 72 fuzis e 155 pistolas, além de 466 carregadores e 1.719 carregadores. A identificação dos desvios feitas em 2011 só se transformou dois anos depois em inquérito, que não chegou a ser concluído.

Ano passado%2C 23 armas desapareceram da reserva de material bélico do Batalhão de Choque%2C no CentroAgência O Dia

Somente no 9º BPM (Rocha Miranda) está sendo investigado o sumiço de 51 armas, entre submetralhadoras, fuzil, revólveres e pistolas. Da mesma unidade saíram 856 carregadores de pistola, carabina e fuzil 7,62. A falta de controle chama atenção ainda no 22º BPM (Maré) com relação a munições e cartuchos. São 466 de diversos calibres que não foram encontrados no paiol.

“Não há outra receita para contornar essa situação, além da fiscalização. O que não pode ser permitido é que armas do Estado sirvam para atacar vidas”, ressalta Luiz Flávio Gomes, especialista em Direito Criminal.

Na relação de investigação, o Batalhão de Operações Especiais (Bope), tropa de elite da PM, tem que dar conta de 44 armamentos, entre eles pistolas, carabinas e fuzil. Nos bastidores, a cúpula da PM tem feito reuniões para traçar novos planos e tentar fechar o cerco à vulnerabilidade dos paióis.

Uma das medidas é pedir à principal fornecedora de armas para a corporação que coloque numeração especial nas munições. A recomendação foi feita pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do tráfico de armas, munições e explosivos no estado em 2011, mas nunca foi cumprida.

A colocação de câmeras em todas as reservas de armamento também é outro projeto que está sendo estudado para evitar ataques de criminosos. No entanto, mesmo com o equipamento, a reserva de armamento do Batalhão de Choque foi roubada em outubro do ano passado.

Um carro de cor escura entrou, sem resistência, na unidade. Os criminosos roubaram 23 pistolas e cinco armas usados pelos policiais que faziam a guarda do local. Imagens captaram parte da ação. O material está sendo analisado. 

Sumiço sem explicação

Das quase 500 armas que sumiram dos paióis da Polícia Militar em 2011 — que constam na investigação a qual o jornal teve acesso —, para a maioria ainda não há uma explicação sobre o seu paradeiro.

A apuração ainda levanta o destino de 465 munições. Naquele ano, algumas dessas munições foram encontradas na Região Oceânica de Niterói, no local onde a juíza Patrícia Acioli foi assassinada com 21 tiros, na porta de sua casa. Algumas das munições apreendidas faziam parte de um lote desviado da reserva de armamento do 7º BPM (São Gonçalo), uma das unidades que mais tinha policiais respondendo a processos julgados pela magistrada.

Semana passada, o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, voltou a apontar falhas no controle das fronteiras, mas informou que pretende fazer uma maior fiscalização. O secretário finaliza projeto com uso de tecnologia para regular a entrada e saída de armas. A meta é construir uma sala com painel de controle biométrico do arsenal. O cadastro do armamento seria feito através de um sistema informatizado.

Alerj abre CPI para apurar denúncia

Com base na matéria publicada pelo DIA segunda-feira, o deputado Carlos Minc (PT), pediu a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa para apurar os desvios de armamento na Polícia Militar, Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) e Corpo de Bombeiros.

Pelo documento protocolado ontem, Minc espera contar com a participação de sete membros. O grupo deve ser indicado pelas lideranças de partido. Porém, terá que ser aprovada a instalação pelos deputados. Para investigar o descontrole nos paióis das forças do estado, Minc conta com o apoio do presidente da Alerj, Jorge Picciani (PMDB). O parlamentar entende que falta fiscalização e punição para os responsáveis. 

Levantamento feito pelo jornal mostra ineficiência nos mecanismos da PM para impedir o sumiço de armas. Foi constatado que até quem é demitido da corporação continua com a arma. Como foi o caso do ex-soldado Edvan Mendes Lima. Expulso em 2013, ele só devolveu a pistola ponto 40 e munição em novembro de 2014.

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