Famílias mudam hábitos e refazem planos por conta da crise

Estudo do Clube de Diretores Lojistas (CDL-RJ) revela que os consumidores estão sumindo das lojas, comprando somente o necessário

Por O Dia

Rio - Moradora de Copacabana, na Zona Sul, a turismóloga Susana Madruga, de 51 anos, decidiu, com as três filhas, rever o orçamento familiar e mudar radicalmente de hábitos para enfrentar a crise econômica. Entre as medidas, cortou o plano de saúde — mais de R$ 2,5 mil mensais — e cancelou as sonhadas e planejadas viagens internacionais nas férias das filhas.

Na Zona Norte, a comerciante Sheila Reis, 55 anos, dona de uma loja em Madureira, conseguiu realizar o sonho de comprar um apartamento no Recreio. Mas, diante das dificuldades, acabou não mudando de endereço. Continuou morando com os dois filhos no bairro onde trabalha, economizando R$ 1 mil por mês. Além disso, abriu mão de marcas alimentícias tradicionais. O imóvel no Recreio virou ‘casa de veraneio’.

Suzana cortou o plano de saúde e as viagens para o exterior planejadas com as filhas Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

Suzana, Sheila, e os filhos fazem parte dos 56,1% dos brasileiros que, segundo pesquisa inédita da Confederação Nacional da Indústria (CNI), mudaram hábitos de consumo ou planejamento financeiro para apertar os cintos das despesas, depois de mais de uma década de consumo desenfreado.

“Se não fizéssemos esses esforços, as coisas estariam piores”, justifica Susana. “A economia que estamos percebendo, ficando em Madureira durante a semana, sem trânsito e sem jantar fora, tem nos trazido recompensas incríveis”, garante Sheila.

Os primeiros sinais da alteração do comportamento dos cariocas são refletidos no comércio. Estudo do Clube de Diretores Lojistas (CDL-RJ) revela que os consumidores estão sumindo das lojas, comprando somente o necessário. É o que traduz a pesquisa Termômetro de Vendas, feita mensalmente pela entidade, com base no Serviço Central de Proteção ao Crédito (SPC). A última mostra que o número de consultas ao comércio (índice que aponta a intenção de compra) diminuiu 3,6% em agosto em relação ao ano passado.

“Nem o Dia dos Pais, uma grande data para o comércio, conseguiu reverter o pior resultado para o mês de agosto registrado desde 2004”, lamenta o presidente do CDL-RJ, Aldo Gonçalves. Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil, diz que a população está começando a tomar iniciativas que deveriam ter sido tomadas há dez anos.

“Se as mudanças de hábitos tivessem sido tomadas na época das vacas gordas, as pessoas teriam até dinheiro guardado para superar essa fase, que pode durar mais de dois anos. Agora, têm que fazer na marra”, comenta.

Lições de economia

Para ela, o lado positivo é que as lições de economia, em todos os setores, entre eles saúde, lazer, educação, vestuário e alimentação, tendem a ficar para sempre. “O limão pode virar uma limonada, uma vez que nenhuma crise é para sempre”,diz.

Mas olhar para o futuro com otimismo está difícil atualmente para a população. Na consulta de ‘O Cenário Econômico na Visão dos Consumidores’, do SPC Brasil e Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), apenas um em cada dez cidadãos diz que confia na melhora do quadro atual.

Para poupar R%24 1 mil de transporte por mês%2C Sheila não mudou para casa no Recreio. Mora perto da lojaDivulgação

Supérfluos, os maiores vilões

O economista do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec-RJ), Gilberto Braga, ensina que nunca é tarde para cortes de supérfluos. “É preciso revisar todos os gastos e eliminar dívidas. E insistir na economia de água, luz e telefone. Mas toda a família tem que estar comprometida, não só os pais”, diz.

Susana Madruga conta que a família levou um certo tempo para se acostumar a ficar sem plano de saúde e projetos de viagens. “Mas essas eram as maiores ‘gorduras’ no orçamento. Há vida sem essas despesas.”

'É preciso cortar caprichos e manias na rotina diária'

Fazer cortes no orçamento exige disciplina e não é fácil para o consumidor. Titular da Academia Nacional de Economia, o jornalista Alex Campos reuniu dicas que ele faz diariamente na rádio JBFM no livro ‘Faça as Pazes com o Dinhe!ro’. Ele ensina como as famílias devem proceder diante da crise. “Minha principal dica é: de modo em geral, dê-se ao luxo de gastar menos, com as coisas que precisa; e não gastar mais, com o que não precisa. É na crise que a gente deve pagar barato”, aconselha.

Segundo Alex, quando se mudam hábitos de consumo, sempre há impactos. “É preciso haver um pacto entre os familiares, unindo forças e buscando soluções”, observa. Para ele, não basta apenas cortar excessos. “É preciso cortar caprichos com mais roupas e calçados. E cortar manias, como usar o carro para ir à academia, por exemplo. Menos roupas, menos carro, menos celular, menos internet, menos compras, menos combos, e menos marcas e grifes. Resumindo: menor consumo em geral e menos consumismo em particular”, opina.

No livro, Alex condena o cartão de crédito. “Deve ser mantido fora do alcance de adultos. Em média, eles já representam 30% do consumo das famílias”, alerta, lembrando que há outras formas de financiamento mais baratas e menos perigosas, como o empréstimo consignado, com desconto em folha, e o micropenhor da Caixa, adequados para urgências de curto ou médio prazos. Ele indica ainda serviços que gerem renda extra, como fazer bicos, frilas e serviços temporários.

Movimento na loja do sapateiro Francisco dobrou com a criseSeverino Silva / Agência O Dia

O economista Gilberto Braga, por sua vez, lembra que, diante do número de famílias brasileiras endividadas (62,7% conforme a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor — Peic), as compras parceladas a longo prazo devem ser evitadas. Ele dá outros exemplos que podem reduzir gastos: “O cinema pode ser trocado por aluguel de filmes ou pelos canais a cabo; o transporte escolar pode ser substituído por caronas solidárias; jantares fora podem ser feitos em casa mesmo.”

?Escolas negociam preços e sapateiro fatura em dobro

?Ajustes nas despesas com a escola dos filhos também fazem parte da reengenharia. A comerciária Luzimar Beltrão, de 42 anos, decidiu que no ano que vem a filha Aline,11 anos, sairá da escola particular para uma pública. Meu marido ficou desempregado. Não poderemos mais arcar com a mensalidade de R$ 800, que pode ter até 15% de aumento”, lamenta.

O Sindicato das Escolas Particulares (Sinepe-RJ) não tem ainda estatísticas fechadas de inadimplência e transferências para escolas públicas. Mas, estimativas do setor dão conta de que podem ter chegado a quase 20 mil — 14% a mais que 2014. “As negociações estão aumentando”, admite Anna Collares, presidente da entidade, que tem 134 associadas em 63 municípios. Para não perderem estudantes, alguns colégios, como o tradicional Oga Mitá, vão manter a mensalidade em 2016.

No melhor estilo “há sempre alguém para vender lenço para quem chora”, profissionais que andavam esquecidos estão em alta. É o caso das costureiras, técnicos em manutenção e informática, sapateiros, vendedores de carros usados e donos de brechós. “Estou recuperando, em média, 600 pares de calçados por mês, o dobro que há um ano”, comemora o sapateiro Francisco La Câmara, 81 anos, da Tijuca.

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