Roubos de cabos deixam bairros sem energia e telefone

Vendidas em ferros-velhos ilegais, fiações valem ouro para viciados em drogas

Por O Dia

Rio - Nunca tantos cabos de telefones e elétricos foram furtados no Estado do Rio. Além de prejuízos incalculáveis às concessionárias dos dois setores, as ações dos bandidos, conhecidos como piratas de redes, têm deixado milhares de usuários sem telefones e energia com cada vez mais frequência. Em alguns casos, os apagões atingem residências por até uma semana inteira. 

Homem suspeito de furtar cinco toneladas de fiosDivulgação

De acordo com o último levantamento da Light, por exemplo, que atua em 31 municípios, nos últimos cinco anos a empresa amargou um prejuízo de R$ 20 milhões com o furto de 260 quilômetros de fios de cobre de seu sistema.

É o equivalente à distância entre o Rio de Janeiro e Aparecida, no interior paulista, e ao dobro do material roubado há dois anos.

A concessionária de telecomunicações Oi informou que só este ano, até agosto, registrou 2.588 casos de furtos de cabos (média de 12 por dia) e de 49 baterias especiais de suas estações espalhadas pelo estado. São 222 casos a mais que o mesmo período em 2014.

A Rioluz, empresa de iluminação ligada à prefeitura, por sua vez, classifica os furtos e atos de vandalismo como “alarmantes e frequentes”. Em nota, o órgão revelou que desde janeiro, dez boletins de ocorrências, relativos a furtos relevantes foram registrados nas delegacias de Vila Isabel (20ªDP), São Cristóvão (17ª DP) e Ilha do Governador (37ª DP). Todos dando conta de furtos de projetores, cabos e lâmpadas, entre outros materiais.

Nesse período, locais improváveis foram alvos dos bandidos. Como a histórica Igreja da Penha, que, semana passada, teve sua iluminação cênica apagada porque desapareceram 700 metros cabos de aluminío e sete projetores de lâmpadas de sódio, no valor de R$ 5,2 mil. O sistema de iluminação do Túnel Noel Rosa, em Vila Isabel, foi atacado sete vezes este ano. O Elevado Rufino Pizarro, que liga o Elevado Paulo de Frontin à Linha Vermelha, duas. A Ponte Estaiada, na Ilha do Governador, também não escapou, tendo 14 lâmpadas de 100 watts furtadas, a quase 60 metros de altura.

Compra ilegal desafia as leis

Cabos de telefone e de energia furtados são comprados, segundo especialistas pela maior parte dos cerca de 300 ferros-velhos espalhados pelo Estado do Rio. Todos os estabelecimentos estão ilegais atualmente, conforme nova lei federal (do Desmonte, 12.977/14). A legislação passou a determinar que os Detrans os regulamente, mas, conforme publicado pelo DIA em 20 de agosto, o órgão no Rio de Janeiro admitiu que ainda busca soluções para cumprir a lei, uma vez que não tem condições de cadastrar e, muito menos, fiscalizar os estabelecimentos.

Os ferros-velhos são a principal fonte de renda para viciados adquirirem drogas, conforme informações da Polícia Civil.

Para tentar minimizar as ações dos ladrões, as empresas investem em seguranças particulares. A Ligth, além de contratar o que chama de equipes de inteligência (funcionários que monitoram 24 horas as redes de distribuição), instalou trancas que dão acesso às redes subterrâneas, substitui equipamentos de cobre e outros metais por fibras de vidros, e investe em campanhas incentivando denúncias. A concessionária garante que reduziu 50% das ocorrências nos últimos meses.

Funcionário da Rioluz faz reparo em galeria atacada por bandidos na Zona NorteDivulgação

Graças à um telefonema anônimo de cliente da concessionária, aliás, que Antônio Cardoso Neto, o Tatu, 43, tido como o maior ladrão de cabos do estado — acusado de ter furtado, sozinho, cinco toneladas de fios da Light no Centro, Ipanema, Jardim Botânico e Lagoa, entre 2013 e 2014 — foi preso e cumpre pena na Penitenciária Milton Dias Ferreira, em Japeri. Tatu é um dos mais de 100 suspeitos detidos em flagrante ano passado, cometendo pequenos crimes desse tipo na Capital.

Polícia: ladrões agem de forma individual para sustentar vícios

Investigações da polícia reforçam que a maior parte dos roubos é praticada por viciados em crack. Metais como cobre, alumínio e bronze, extraídos dos cabos, que têm a parte de plástico que os envolvem queimada em fogueiras improvisadas, são vistos como ouro. O preço varia de R$ 25 a R$ 60 o quilo, conforme a qualidade do produto. Na ânsia para se drogarem, os ‘nóias’, como são chamados os viciados em crack, porém, costumam vender metais por preços irrisórios.

“Vendo por R$ 4 cada quilo de fio de telefone. Dá para duas pedras de crack”, conta X., 19, morador do Jacarezinho. Ele diz que tem “medo de morrer eletrocutado”, por isso prefere cabos abandonados nas ruas. Mas em sua ficha criminal constam cinco passagens pela 37ª DP (Ilha), acusado de furtar fios em postes.

Titulares de delegacias da Zona Norte, as que mais registram furtos de cabos de telefone e de energia, garantiram, através da assessoria de imprensa, que não existem quadrilhas especializadas, mas dezenas de inquéritos em andamento, relacionados a ações individuais.

Enquanto as ações criminosas continuam, as concessionárias seguem repondo materiais. Só a Rioluz teve que desembolsar R$ 822 mil entre 2013 e 2014, com a perda de 15.607 metros de cabos,175 lâmpadas, 149 reatores e até um transformador.

“Aqui no Méier costumamos ficar horas e até dias sem luz por conta dos ladrões de fios. Roubam a qualquer hora do dia ou da noite”, lamenta o aposentado João Silva, 56, morador da Rua Dias da Cruz.


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