Quadrilha expulsa policiais moradores de comunidades na Baixada

Comandante diz que tráfico criou ‘boca’ itinerante

Por O Dia

Rio - Em dez meses, 15 pessoas, entre elas seis policiais — sendo cinco PMs — foram expulsas de suas casas nos morros do K-11, Coréia, Caixa D’ Água e Barreira. A medida foi imposta a policiais ou seus amigos por traficantes que ocuparam as quatro comunidades entre Mesquita e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. 

Um dos primeiros expulsos foi o sargento do 9º BPM (Rocha Miranda), W, de 41 anos. Ameaçado por traficantes na Barreira, ele deixou a casa própria, no dia 25 de janeiro, com a mulher e um filho, para morar de aluguel em outro local. “Um absurdo ter que deixar sua casa por ordem do tráfico. Mas, foi melhor aceitar a imposição dos traficantes do que ser punido por eles. A punição é a morte. Tive dois dias para deixar a casa”, desabafou o militar, sem se identificar.

Moradores que tiveram que se mudar das casas onde moravam entre Nova Iguaçu e Mesquita evitam até passar perto do antigo endereçoDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Já o soldado da PM, T, de 34 anos, também do batalhão de Rocha Miranda, foi expulso do Morro da Caixa D’Água no dia 29 de março, apenas com a roupa do corpo. De um lado sentiu a tristeza por deixar sua casa, do outro, o alívio por estar vivo.

“Sou nascido e criado na comunidade, mas o local se transformou num inferno. Lembro bem do dia em que seis criminosos armados de pistolas e fuzis, entraram na minha casa e deram o aviso: ‘sabemos que um policial mora aqui. Se não sair vai morrer’. Peguei meus dois filhos pequenos e a mulher e fui embora com algumas roupas. Foram agressivos. Deixei para trás móveis, eletrodomésticos e roupas”, lembrou o militar, que evita passar próximo ao local.

Ainda de acordo com ele, a casa não foi alugada por ordem de traficantes. “Por ora, ela ainda não foi invadida. Não posso alugá-la porque vão achar que os moradores são informantes da polícia e agredir também. Um absurdo, mas nem policial está sendo respeitado”, criticou.

Homem com camisa enrolada na cabeça e aparentemente armado caminha em suposto acampamento do tráfico no morro do bairro K-11Reprodução

No Morro do K-11, bairro considerado uma área nobre de Nova Iguaçu e cercada de imóveis caros, equipe do DIA flagrou suspeitos armados acampados na mata. Eles se movimentavam de um lado para o outro e vigiavam a região com binóculo.

O comandante do 20º BPM (Mesquita), tenente-coronel Roberto Dantas, desconhece a denúncia e afirmou que na região há um policiamento preventivo, e que traficantes montaram bocas de fumo itinerantes. “Fazemos operações todos os dias. Nos últimos 40 dias, só no K-11 fizemos 18 prisões. Lá há três viaturas patrulhando as ruas”, afirmou. Dantas ainda negou que traficantes do Complexo do Chapadão, em Costa Barros, estariam migrando para os morros do K-11, Coreia, Barreira e Caixa D’Água. “Não há indícios disto ainda”, avisou.

O delegado titular da 53ª DP (Mesquita), Matheus de Almeida, confirmou as expulsões. “Já há um inquérito instaurado na delegacia desde setembro. Quatro pessoas já foram ouvidas e teve policial expulso também. Não podemos passar mais detalhes para não atrapalhar as investigações. Alguns autores foram identificados e o procedimento será encaminhado ao Ministério Público com pedido de prisão”, garantiu.

Na 52ª DP (Nova Iguaçu), o delegado Júlio da Silva informou que as denúncias serão apuradas. “Não chegou nenhum informção sobre isso na delegacia, mas vamos checar. Muito importante denunciar estas ações e não se omitir”, lembrou.

Barricada na porta e ordem para se mudar

Y, 47 anos, foi uma das moradoras expulsas pelo tráfico e tem tanto medo ainda, que esconde até os cabelos. Há quatro meses teve sair da casa onde morava na Caixa D’Água em menos de 24 horas com os filhos e neto. Ela foi acusada de ser amiga de policiais.

“Colocam barricadas na porta da casa e avisam para o morador sair rápido. Tive que mudar para outra cidade e perdi o emprego.Devo a agiota, que me emprestou dinheiro para a mudança”, lamentou a ex-moradora.

Mesmo ameaçados, algum continuam na região. Morador do K-11, X, de 35 anos, conta que traficantes ameaçaram cortar sua cabeça caso fosse visto conversando com policiais. “Muitos não denunciam na delegacia por medo de serem identificados. Há paraticamente conivência com o tráfico por medo”, diz o rapaz, que se mudou recentemente.

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