Abrigos são reformados e já recebem até refugiados

Antigos causavam medo a moradores de rua, que preferiam viver em ruas policiadas

Por O Dia

Rio - A guerra entre grupos tribais em Gana, na África, fez Mohammed Awal Issah, 37 anos, deixar a terra natal e ‘morar’ um abrigo para população de rua da Prefeitura do Rio. Foram as batalhas perdidas para as drogas e álcool que levaram José Marcos Tostes, 57, ao mesmo local. Trata-se do Abrigo Plínio Marcos, em frente à Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão. Enquanto Tostes é um exemplo comum entre os abrigados — 85% são envolvidos com drogas —, Mohammed tem tudo para integrar outra estatística: a de reinserção à vida social. Muçulmano, ele não chega perto de bebida alcoólica ou narcóticos, é artesão e quer logo se estabelecer no Rio.

Refeição é servida para as pessoas que estão sendo ressocializadas nos abrigo da Prefeitura do RioDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Os abrigos do Rio foram centro de uma polêmica na semana passada, depois que o casal Adaílton Farias dos Santos, 33, e Amanda Silvestre da Silva, 26, foram queimados quando dormiam em calçada do Rio Comprido. Amanda está em estado grave com 72% do corpo queimado. Outros moradores de rua ficaram com medo, mas disseram que preferiam viver na rua policiada a ir para abrigos. Segundo eles, tinha gente dormindo no chão e usando facas. Para o secretário de Desenvolvimento Social e vice-prefeito, Adilson Pires, as queixas são referentes a uma realidade do passado.

“Estamos reformando todos os espaços e estipulando um máximo de 50 residentes por unidade. Teremos atividades culturais, artísticas, lúdicas, além de capacitação para as pessoas. Não negamos que houve problemas, mas estamos mudando tudo, oferecendo dignidade para essas pessoas retomarem a vida delas”, explicou Pires.

A rede da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social tem 29 abrigos, com 1.687 vagas. Em 2014, 680 pessoas retomaram o rumo, aceitaram tratamento psicológico, psíquico, de dependência e foram reinseridos na sociedade. O Abrigo Rio Acolhedor, em Paciência, que tinha 350 abrigados e o apelido de depósito de gente, está em reforma e dia 26 será reaberto com oito unidades independentes, inclusive de administração, para 48 pessoas cada uma. O custo anual dos abrigos é de R$ 43 milhões. “Imagina 30 beliches cheios? Um fuma, outro reza alto, fica insuportável. É preciso um mínimo de privacidade para que o abrigado evoluir”, diz.

Mohammed não entra em detalhes sobre a viagem que o trouxe. Já as viagens que José Marcos Tostes experimentou são bem conhecidas. “Eu sei os efeitos de todas as drogas que existem”, conta o ex-universitário que estava no 4º ano de Psicologia quando enveredou pelas drogas. Atualmente, ele bebe todos os dias. “Sei que foram caminhos errados, mas vamos tentar mudar isso”, diz Tostes, para si mesmo.

Mohammed Awal Issah veio de Gana%2C está ‘hospedado’ em abrigo de São Cristóvão e faz curso de portuguêsDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Albergue para trabalhadores

Depois de 10 anos vivendo nas ruas, Renato Pereira Donato, 42, está contando os dias para ir para casa. Conseguiu um emprego de auxiliar de serviços gerais, já alugou seu cantinho e está comprando o que precisa para montar a casa. “Estou muito feliz. Já comprei geladeira, fogão e cama. Falta o colchão. Foi aqui que consegui me afastar das drogas e tirei documentos”, conta Renato, que está no Abrigo Plínio Marcos.

Adilson Pires conta que é difícil convencer o morador de rua a ir para os abrigos. “Queremos trazer experiência da Inglaterra, para evitar que a pessoa passe a segunda noite nas ruas.” Segundo ele, 30% dos moradores de rua da cidade têm casa, trabalham e não voltam para casa por causa do custo de transporte. “Vamos inaugurar quatro albergues para que esta pessoa chegue à noite, tome banho, se alimente, durma, e às 8h do dia seguinte, tome café para trabalhar. Não podemos admitir gente dormindo em calçadas”, promete Pires.

O residente nos abrigos tem a liberdade de sair, trabalhar, circular pelas ruas, mas voltar em horário estipulado. Se estiver drogado ou alcoolizado ficará do lado de fora até o efeito passar. Entrar com drogas, bebida ou objetos cortantes é proibido. Há cinco refeições diárias, banho, cama com armários, em beliches em quartos para até quatro pessoas. Quem não está doente, lava a própria roupa e cuida da cama. Para debilitados, há lavanderia. “Há briga sim. São 50 homens vivendo juntos”, admite a diretora Adriana Veríssimo.

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