Por paulo.gomes
Publicado 24/11/2015 14:09 | Atualizado 24/11/2015 17:15

Rio - Representantes de pelo menos 30 movimentos sociais da esquerda brasileira fizeram na noite de segunda-feira, na UERJ, o lançamento oficial no Rio de Janeiro da Povo Sem Medo, uma frente nacional de mobilização que pretende se apresentar como alternativa política à sociedade, apontando e cobrando mudanças na política econômica do governo federal, diferentes das que vêm sendo elaboradas no ajuste fiscal proposto pelo ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa.

"Precisamos valorizar o que une a esquerda. Não o que nos divide. Precisamos combater esse ajuste fiscal. Não é o povo quem tem que pagar a conta. Precisamos combater também esse conservadorismo que ataca os direitos das mulheres, dos negros, da comunidade LGBT. E faremos isso nas ruas, derrubando Eduardo Cunha, que personifica tudo isso. Não aceitamos falsas saídas à esquerda. Precisamos da reformas urbana, tributária, política e agrária. Da auditoria da dívida. De todas essas pautas que a esquerda esqueceu de fazer. Temos que criar alternativas para as classes mais baixas", explicou Guilherme Boulos, coordenador do MTST, um dos líderes da Povo Sem Medo.

Os deputados Jean Wyllys e Chico Alencar%2C Vitor Guimarães%2C da frente Povo Sem Medo%2C deputado Marcelo Freixo e o senador Lindberg FariasCaio Barbosa / Agência O Dia

O evento contou com a participação, inclusive, do senador petista Lindberg Farias, que não poupou críticas contundentes à condução da política econômica do governo de seu partido.

"Esta política de austeridade fracassou em Portugal, na Espanha e na Grécia. É um absurdo pagarmos R$ 510 bilhões de juros ao sistema financeiro com a educação tendo orçamento de menos de R$ 100 bilhões. Com a saúde tendo orçamento de pouco mais de R$ 100 bilhões. A esquerda e o PT estão na sua mais profunda crise, que podem nos levar, em um ano e meio, a uma regressão social aos moldes da era pré-Lula. Temos 10 milhões de pessoas que ascenderam à classe C neste governo e que agora podem fazer o caminho de volta. Eu não vou participar disso. Temos que ir para as ruas garantir empregos e evitar este processo de regressão", disse Lindberg.

Os deputados federais do Psol Jean Wyllis e Chico Alencar também participaram do ato, bem como o pré-candidato a prefeito do Rio, Marcelo Freixo. Para Jean, a esquerda brasileira precisa aprender a "falar para fora" e voltar a conquistar o apoio da sociedade, perdido nos últimos anos do governo petista.

"Não adianta a gente ficar falando os nossos jargões de esquerda. Precisamos mudar esta mentalidade e convencer quem está do nosso lado, o nosso vizinho que não se interessa por política e acaba sendo seduzido e tendendo a esta onda fascista que aí está. Não é uma tarefa pequena, mas necessária. Precisamos ocupar as ruas, rever nossos preconceitos, baixar o fogo amigo", disse Jean.

O deputado Chico Alencar, ex-petista, foi outro a criticar não apenas a política econômica do governo federal, mas a forma como o PT desmobilizou a esquerda brasileira após chegar ao poder. E considerou fundamental uma nova mobilização dos movimentos sociais para barrar a pauta conservadora do Congresso Nacional.

"A era Lula e Dilma chegou onde chegou porque desmobilizou as forças de mudança. Se a gente sai da nossa luta, nossos mandatos não valem nada. Precisamos não só nos unir na diversidade, mas reconhecer que temos perdido a disputa de ideias, que temos uma incapacidade de nos comunicar. Não adianta falar em auditórios, só para a gente. Temos que falar para quem é diferente de nós. Se não, é monobloco, não é frente. Monobloco é legal apenas no Carnaval. A lutas nas ruas nos ajuda de maneira decisiva no Congresso. Sem a praça gritando, o palácio trama a opressão", disse Alencar.

Visivelmente abatido pela morte, na última sexta-feira, do policial militar Alexandre Murta, responsável por sua segurança, o deputado estadual Marcelo Freixo fez um rápido e emocionado discurso.

"Alexandre era um policial militar defensor dos direitos humanos. Era pobre, da periferia. Não era meu segurança particular. Era público, que se tornou necessário pela atuação que tenho como homem público. Temos muitas diferenças na esquerda, mas elas não podem ser maiores na hora de achar que a redução da maioridade penal é normal, que a violência contra a mulher é normal e que o genocídio da juventude negra é normal", disse Freixo.

O vereador Jefferson Moura, da Rede, engrossou o coro e convocou os presentes a lutar pela democracia.

"Esta frente Povo Sem Medo é essencial. Precisamos juntar os petistas que resistem a este governo que se dobra à direita. Juntar os brizolistas, os que lutam pela democracia, para nos unir em torno do que vale a pena", disse Jefferson Moura.

O vereador Leonel Brizola Neto, que trocou recentemente o PDT criado por seu avô pelo Psol, também se fez presente com um discurso lembrando o ex-governador do Rio de Janeiro.

"O que nos une aqui é a defesa intransigente do povo brasileiro. Uma luta muito difícil porque a esquerda não fez sua primeira batalha, em 2003, ao não democratizar a mídia. Precisamos fazer o diálogo com a sociedade e tirar a máscara daqueles que falam falsamente em democracia. Se Brizola usou a rádio pela legalidade, vamos usar a internet e os movimentos sociais para dar um não rotundo a este ovo da serpente que está no Congresso representado pelo Eduardo Cunha", disse Brizola Neto.

Participaram do lançamento da representantes dos seguintes movimentos:

Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST); Central Única dos Trabalhadores (CUT); Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB); Intersindical - Central da Classe Trabalhadora; União Nacional dos Estudantes (UNE); União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes); Associação Nacional dos Pós Graduandos (ANPG); Federação Nacional dos Estudantes do Ensino Técino (Fenet); Uneafro; Círculo Palmarino; Unegro; Igreja Povo de Deus em Movimento (IPDM); União da Juventude Socialista (UJS); Rua - Juventude Anticapitalista; Coletivo Juntos; União da Juventude Rebelião (UJR); Juventude Socialismo e Liberdade (JSOL); Coletivo Construção; Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB); Fora do Eixo / Mídia Ninja; Coletivo Cordel; União Brasileira de Mulheres (UBM); Bloco de Resistência Socialista; Rede Emancipa de Educação Popular; Coletivo de Mulheres Olga Benário; Juventude da Esquerda Marxista; Coletivo de Literatura Marginal, Brigadas Populares. 

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