Medo da microcefalia leva mulheres a congelar óvulos e adiar gravidez

Futuras mamães optaram por dar uma parada temporária no relógio biológico

Por O Dia

Rio - Na procura por alternativas contra os riscos de microcefalia decorrente do zika vírus, aumentou o número de mulheres que estão recorrendo ao congelamento de óvulos ou embriões para adiar o sonho de ser mãe. São as futuras mamães que já faziam tratamento para engravidar, mas com o surto da malformação congênita, acabaram por adiar a gravidez. Com 40% de chances de engravidar, parar o relógio biológico no tempo tornou-se uma opção.

Assustada com o noticiário%2C Patrícia congelou os óvulos em setembro. 'Tomei a decisão certa'%2C acreditaErnesto Carriço / Agência O Dia

Esse ritual de congelamento de óvulos tem chamado a atenção de especialistas pelo aumento intenso da procura nos últimos meses. “Nesse momento de indefinição, o ideal é que as mulheres aguardem. E congelar óvulos é a maneira mais segura para aquelas que pensam em postergar a maternidade”, explica o médico Paulo Gallo, diretor do Vida - Centro de Fertilidade da Rede D’Or. Segundo ele, a alternativa se torna ainda mais viável para mulheres acima dos 30, que não podem se dar ao luxo de esperar tanto para engravidar. Isso porque o óvulo se mantem com a mesma idade e percentual de fertilidade do momento em que é congelado.

Esse é o caso de Patrícia Lacerda Gentil, a profissional de marketing de 36 anos, que congelou seus óvulos em setembro, até ter a certeza de estabilidade familiar. Hoje, com o fantasma da microcefalia assombrando o país, Patrícia sente ainda mais certeza da escolha.

“Sabendo desse surto, fico feliz por minha decisão. Tenho a segurança de que posso engravidar quando achar melhor. Hoje, mesmo se tivesse a estabilidade familiar que procuro, não teria o filho. Manteria o óvulo congelado, até ter a segurança e a certeza de que ele não seria prejudicado pela doença”, diz, aliviada.

Fertilização custa valor de carro popular

A dona de casa Thaís Carvalho (nome fictício), de 40 anos, iria realizar uma fertilização in vitro - técnica em que o óvulo e o esperma são fecundados fora do corpo da mulher - nesse mês. O risco de microcefalia associado à Zika a fez mudar de ideia. “As poucas e desencontradas informações fizeram com que eu e meu marido mudássemos de ideia. Preferimos esperar. Se preciso, vamos aguardar até o final do ano que vem, não importa. Só precisamos de mais informações para tomar esse tipo de decisão”, explicou.

No Rio, não existe serviço de reprodução assistida na rede pública. Cada tentativa de fertilização pode custar quase o preço de um carro popular — R$ 20 mil a R$ 25 mil — incluindo despesas com clínicas e medicamentos.

As etapas do congelamento lembram o início do tratamento de fertilização: a paciente recebe injeções com hormônios por 14 dias para estimular a produção de óvulos. A partir da coleta dos óvulos, as células são examinadas e, em vez de serem fecundadas e implantadas no útero, são vitrificadas minutos depois, a uma temperatura de -196ºC e transferidas para um contêiner com nitrogênio líquido.

O procedimento protege as células e permite que elas sejam conservadas por longos períodos de tempo. Segundo o Dr. Gallo, existem casos de gestações originárias de óvulos congelados há mais de 15 anos.

Reportagem da estagiária Marina Brandão

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