Por bianca.lobianco
Publicado 20/12/2015 01:27 | Atualizado 20/12/2015 02:45

Rio - O fim do expediente é o momento mais tenso do dia para a recepcionista Lilian Villela, de 28 anos. Funcionária em um escritório de advocacia na Avenida Rio Branco, quase esquina com a Rua do Ouvidor, no Centro do Rio, ela faz hora para conseguir companhia na caminhada até o Castelo. Um percurso de pouco mais de 500 metros, onde já foi assaltada três vezes este ano. A rotina de roubos na região não tira a tranquilidade apenas da recepcionista. Por três semanas, O DIA acompanhou a ação de grupos de delinquentes, que circulam pela avenida — transformada em um canteiro de obras — atacando pedestres enquanto inalam thinner.

Com uma microcâmera, a reportagem flagrou três assaltos e ao menos outras seis tentativas no trecho da avenida entre o Largo da Carioca e a recém-revitalizada Praça Mauá. Os ataques acontecem com mais frequência em quatro pontos da avenida, que a prefeitura planeja transformar no “boulevard carioca”. Os números do Instituto de Segurança Pública (ISP) comprovam a ação de jovens delinquentes numa das principais vias do Centro do Rio.

Clique na imagem para ver o infográfico completoArte%3A O Dia

O primeiro trecho onde os assaltantes atacam fica em frente à Praça Mauá. Segunda-feira (14), às 17h, a equipe de reportagem flagrou um homem abordando uma mulher que aguardava o sinal fechar para atravessar a rua. Descalço e só de calça jeans, ele segurava uma garrafa plástica com tíner. Alheio ao sol forte e a presença de guardas municipais, segue ao lado da mulher, que se dirige a um veículo. Dele sai um motorista e pergunta ao homem sem camisa o que ele quer. A mulher se senta no banco traseiro, e o motorista fecha a porta, mas o homem, visivelmente transtornado, cola o rosto no vidro. O carro parte e ele segue passando pela equipe.

A situação é pior no trecho da Avenida Rio Branco, entre as ruas do Ouvidor e Rosário. Há um ponto de ônibus em frente a uma lanchonete. “Foi ali, esperando o ônibus, que fui assaltada a primeira vez”, lembra a recepcionista, que teve um cordão arrancado do pescoço por um adolescente. O vaivém de grupos formados por jovens é rotina. Muitos circulam descalços e inalando thinner.

A aproximação é rápida e geralmente certeira. Mulheres, idosos e estrangeiros são os alvos preferidos dos bandos. Nem quem passa nos coletivos está livre dos ataques. No dia 11, um adolescente tentou pegar o celular de um rapaz, mas acabou frustrado. Em outra ação, na esquina com a Rua da Assembleia, uma mulher teve o cordão arrancado por um jovem, que escapou correndo pela Rio Branco.

Segurança: PM diz estar atenta e que reforço aumentará sensação de segurança

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar informou por meio de nota que o comando do 5° BPM (Praça da Harmonia) está atento à ação dos bandos na localidade e “vem atuando para a redução dos índices de criminalidade na Avenida Rio Branco.”

De acordo com o Comando-Geral da corporação, o reforço no número de policiais nas ruas poderá aumentar a sensação de segurança. Segundo a nota, desde a semana passada houve aumento no efetivo do Regime Adicional de Serviço. Além disso, segundo a PM, foram adotadas as seguintes medidas para tentar conter a ação dos bandos: intensificação das rondas em patrulhas e por duplas de policiais a pé e a cavalo; reforço nas ações do Grupamento de Policiamento Transportado em Ônibus Urbanos (GPTOU), que atua fazendo revistas no interior de coletivos e patrulhando pontos de ônibus para tentar reprimir os grupos que agem na região. 

Vítimas não denunciam os crimes

Dados do ISP referentes ao mês de novembro mostram que houve aumento no número de registros de roubos a transeuntes nas duas delegacias que atendem a região. Nelas foram computados 218 casos, 14 a mais do que no mesmo período de 2014.

O mesmo é verificado nos casos de roubo de celular, que passaram de 40 para 43. Já a apreensão de adolescentes infratores subiu de 18, em novembro de 2014, para 30, em novembro passado.
Os números, contudo, reforçam o que já foi constatado em pesquisa. A maior parte das vítimas de pequenos roubos não vai à delegacia registrar a ocorrência. É o que revelou a Pesquisa Nacional de Vitimização, coordenada pelo pesquisador Cláudio Beato, da UFMG.

Segundo Beato, a subnotificação de crimes no Rio está entre as maiores do país. “As pessoas geralmente recorrem à delegacia para registrar roubo de veículos por causa do seguro, que exige a notificação para pagar a apólice.”

A constatação feita pela pesquisa encomendada pelo Ministério da Justiça, em 2013, parece não ter mudado. Lilian, a recepcionista citada no início da reportagem, apesar de ter sido vítima de três assaltos, não foi à delegacia nenhuma vez.

O mesmo aconteceu com a mulher que teve o cordão arrancado por um adolescente, dia 10 passado. A ação foi filmada pela reportagem. A vítima, que não quis se identificar, correu em vão para tentar pegar o ladrão e disse que não iria perder tempo na delegacia.

NÚMEROS

218 é o número de registros de roubos a transeuntes contabilizados em novembro passado na 4ª DP e 5 DPª, delegacias que concentram as investigações de crimes ocorridos na localidade.

30 é o número de crianças e adolescentes apreendidos pela polícia na região cortada pela Avenida Rio Branco, em especial, no trecho entre o Largo da Carioca e a recém revitalizada Praça Mauá.


Você pode gostar