Informe do DIA: Professor acredita em 'irresponsabilidade coletiva' no Comperj

Segundo Mauro Osório, a atual crise financeira do estado deve ser compartilhada também com as gestões municipais

Por O Dia

Rio - Professor de Economia da UFRJ, Mauro Osório acredita ter havido uma “irresponsabilidade coletiva” no planejamento que deu início à construção do Complexo Petroquímico de Itaboraí (Comperj) — o qual chama de “miragem”.

Segundo ele, a atual crise financeira do estado deve ser compartilhada também com as gestões municipais. O professor ressalta, no entanto, que 2016 será um ano com uma importante janela de oportunidades: entre elas, os setores de turismo, entretenimento e esportes.

Professor Mauro OsórioUanderson Fernandes / Agência O Dia

O Estado do Rio passa por um momento muito delicado financeiramente, com crise em setores como a saúde e extrema dificuldade para conseguir quitar a folha de pagamento. O que levou à derrocada da economia fluminense nos últimos anos?

MAURO OSÓRIO: Há um conjunto de fatores. Além da crise global,no Brasil nós temos uma incerteza política muito grande, que faz com que quem tenha dinheiro para investir acabe segurando. Quem tem dinheiro para consumir a prazo também não gasta. Isto ocorre mais pela incerteza que pela falta de dinheiro. Se a gente olhar, o crescimento da inadimplência foi pequeno. Mas economia é expectativa. A Petrobras, por exemplo, tem sido muito impactada pela Operação Lava Jato, e isso afeta mais o Rio que os outros estados, pois a maior parte dos fornecedores está aqui. A redução do preço do petróleo também foi determinante na queda da arrecadação do estado.

O governo superestimou a receita dos royalties de petróleo e a criação do Complexo Petroquímico de Itaboraí?

O governo estadual, a Prefeitura de Itaboraí, a Petrobras, a imprensa... Eu acho que ali tem uma irresponsabilidade coletiva. O Comperj foi uma miragem. Lançou-se a ideia do polo petroquímico com uma base concreta muito pequena, eu diria ridícula até. A petroquímica Braskem, que pertence à Odebrecht e é parceira da Petrobras, tem uma ponta em Duque de Caxias que ainda pode dobrar. O que de fato há de possibilidade no Comperj é uma petroquímica um pouco maior que a Refinaria de Duque de Caxias (Reduc).

Quais outros erros o senhor aponta?

O governo deveria ter priorizado mais o planejamento, ter aprofundado a discussão sobre as estratégias. Temos que transformar a Uerj e a Uenf (Universidade Estadual do Norte Fluminense) em polos de reflexão sobre o estado, como fazem com a USP e a Unicamp em São Paulo. Agora, a responsabilidade tem que ser compartilhada também com as prefeituras.. Os indicadores municipais no estado do Rio ainda são muito ruins. A Baixada ganha potencial com o Arco Metropolitano, mas é preciso um Plano Marshall para aquela região. Falta água, falta esgoto, falta telecomunicação... Falta investir numa política de infraestrutura, que ainda é muito precária. São praticamente cidades-dormitório. Se você quer atrair atividade produtiva pra lá, tem que investir.

O senhor vislumbra oportunidades para 2016?

Sim. Os setores de turismo, entretenimento, cultura, cinema e vídeo têm janelas importantes. O preço do dólar está alto, e isso tende a estimular o turismo interno, e aí o Rio é a grande cidade do turismo interno brasileiro. Os cariocas e fluminenses também viajam mais por dentro do estado. Na parte de esportes, tem a Olimpíada. Temos que trabalhar a ideia do Rio como a capital do esporte na America Latina.

Há perspectiva de melhora no cenário econômico fluminense a curto e médio prazo?

Se trabalhar e aprimorar o planejamento, sim. Se ampliar o debate regional, sim. Se as universidades entrarem mais nesses debates, sim. Se as gestões municipais melhorarem muito, sim: há eleições para prefeito este ano. Se evitarmos que surjam novos prefeitos acusados de corrupção e que desfilem em Ferraris, sim.

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