Saneamento e coleta de lixo são aliados contra Aedes aegypti, diz Temporão

Para o atual diretor da Unasul o modelo de desenvolvimento urbano brasileiro deve ser revisto

Por O Dia

Rio - A multiplicação de casos de microcefalia provocados pela zika torna cada vez mais urgente o combate ao Aedes aegypti. A estratégia do governo é mobilizar a população para evitar a proliferação do mosquito e incentivar a pesquisa em busca de uma vacina ou de diagnóstico. O ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, atual diretor do Centro de Pensamento Crítico de Saúde da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), destaca, porém, que a solução definitiva depende de algo mais complexo. “Onde falta saneamento, esgoto e coleta de lixo, há mais focos do mosquito”, alerta. “Isso mostra que o modelo de desenvolvimento urbano brasileiro deve ser revisto”.

Saneamento e coleta de lixo são importantes aliados contra Aedes aegypti%2C diz TemporãoDivulgação

ODIA: Por que a doença se espalhou no Brasil dessa forma?

TEMPORÃO: Os números nos ajudam a entender a situação. Anualmente, o Ministério da Saúde mede o índice de infestação predial. Em todo o Brasil, as equipes vão aos domicílios, por amostragem. O mais recente é de novembro de 2015. Na Região Sudeste, os depósitos onde se encontraram larvas do Aedes aegypti estão 82,5% no armazenamento de água e 17,4% no lixo. Na Região Sul, em 48,8% dos casos estavam no lixo e em 17,8% no armazenamento de água. No Nordeste: 82% no armazenamento de água e 2,1% no lixo. Ou seja, sem discutir a questão da limpeza urbana, da oferta regular de água em quantidade e qualidade e o modelo de urbanização do Brasil nas últimas décadas não se enfrenta o problema adequadamente.

Em uma semana houve aumento de 20% nos casos de microcefalia no Estado do Rio. O combate à doença está sendo feito de forma correta?

Provavelmente esses são casos que estavam sendo investigados e que somente agora tiveram a confirmação. Com o kit que vai permitir um diagnóstico em tempo muito rápido, 20 minutos se não me engano, vamos ter um aliado importantíssimo para uma coisa que ainda está frágil atualmente: números consistentes que permitam às autoridades de saúde fazer um melhor planejamento.

E quanto à situação na cidade do Rio?

O Ministério da Saúde classifica os municípios em situação boa, de alerta ou grave. O Rio está em situação de alerta, não grave. As regiões da cidade que justificam essa classificação são Tijuca, Leopoldina, Campo Grande, Madureira e adjacências. São locais onde existe mais problemas de lixo, de água, de saneamento. Imagino que a Prefeitura do Rio esteja concentrando esforços nessas regiões. Então, a situação do Rio não é confortável, mas também não é dramática. Está em situação de alerta, requer uma mobilização.

A cidade vai sediar os Jogos Olímpicos e receberá milhares de visitantes. Como lidar com esse problema?

A Olimpíada vai acontecer em um mês em que o número de casos já vai estar bem menor. O clima tem uma importância muito grande na questão do desenvolvimento do vetor. Calor e água e chuva, ou então chuva e depois aquele calorão, são as condições ideais para que o mosquito se reproduza. Em agosto teremos condições mais favoráveis. O número de casos deve subir muito até abril. Em maio, cai de maneira importante e até agosto, com temperaturas mais amenas, isso muda. Não creio que cheguemos à Olimpíada em situação de constrangimento ou de impedimento para o evento.

A ciência está avançando no combate às doenças causadas pelo mosquito?

Uma vitória importantíssima da ciência e da medicina brasileiras foi o desenvolvimento desse kit de diagnóstico rápido das três doenças (dengue, chicungunya e zika), pela Fiocruz. É um diferencial. Isso mostra como é importante ter instituições científicas e tecnológicas em condições de dar resposta aos problemas de saúde pública no Brasil. Se a gente ficasse esperando algum país desenvolver esse kit, levaria sei lá quanto tempo. Porque eles não têm essas doenças. Temos que colocar nossa ciência, nossos pesquisadores, nossas instituições para resolver nossos problemas de Saúde pública. A Fiocruz deu um show.

Que providência se pode tomar em relação à microcefalia?

O sistema de saúde tem que ser organizado de maneira adequada para atender às pessoas que adoecem. A microcefalia é dramática porque faltará às famílias não só condições financeiras, mas emocionais e estruturais para dar conta dessas crianças. Elas vão precisar de um grande apoio do poder público e da sociedade como um todo. São crianças que vão ter seu desenvolvimento normal afetado profundamente, vão precisar de cuidados especiais durante toda a sua vida. Isso vai ter um custo brutal para a sociedade, com consequências dramáticas para as famílias.

O senhor acha que o governo pode tomar alguma providência que ainda não tomou?

O que o governo pode fazer está fazendo. Meu receio é se isso será suficiente para reverter drasticamente o quadro, que é o que nós precisamos: uma redução drástica da prevalência do mosquito. Quanto a campanhas, é muito difícil conseguir manter a população mobilizada para isso o ano inteiro. As pessoas teriam que parar de viver. Cadê a solução para a questão do saneamento, esgotamento sanitário, drenagem, oferta de água para toda a população com qualidade, estrutura para a coleta de lixo domiciliar e das ruas? Se nada disso for feito, daqui a 20 anos vamos repetir essa entrevista para falar da mesmas coisas.

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