Hospital Pedro Ernesto vive crise sem precedentes em sua história

Aparelhos de R$ 200 mil foram furtados da unidade, que está sem segurança

Por O Dia

Rio - Vizinho ao Maracanã, palco de abertura e encerramento das Olimpíadas de 2016, o Hospital Universitário Pedro Ernesto, um dos mais importantes do Rio de Janeiro, vive estado de calamidade. Hoje pela manhã, um show de irregularidades chamava a atenção de pacientes e seus familiares, bem como de quem passava pela porta da unidade, no Boulevard 28 de Setembro, em Vila Isabel, Zona Norte da cidade. Dona Ailce Esgobi da Silva, de 68 anos, era uma delas. Desde 2011, ela leva o pai trimestralmente ao Pedro Ernesto. Ele sofre de câncer de próstata. Desolada, ela deixou o hospital rumo à Defensoria Pública, para garantir a continuidade do tratamento.

"Não tem a injeção que ele toma a cada três meses. E que custa R$ 2.500. Não tenho dinheiro. Me resta ir à Justiça", disse Ailce.

Os funcionários terceirizados também protestavam contra a falta de pagamento e benefícios, como tíquete-refeição e vale transporte.

Médicos e trabalhadores terceirizados reclamam de irregularidades que vão desde falta de pagamento até desaparecimento de equipamentosEstefan Radovicz / Agência O Dia

"Estamos passando dificuldades. Sem dinheiro nem para comer. Ninguém nos dá uma satisfação. É um absurdo total", protestou a auxiliar de serviços gerais Alessandra Oliveira de Amorim, que tinha a solidariedade de colegas e parentes de pacientes internados.

O cúmulo do absurdo se deu às 9h. A cirurgiã Maruska Dib Iamut chegou ao hospital e, com a falta de segurança, se deparou com dois aparelhos de colonoscopia, avaliados em R$ 200 mil cada um, furtados. Sem o equipamento, não é possível diagnosticar uma série de doenças, inclusive câncer. Ela prestou queixa do furto na 20ª DP (Vila Isabel).

"A porta não tinha sinal de arrombamento. Imagino que tenha sido um saque feito por gente que tem noção do que se passa aqui. Não havia segurança, imagino que por falta de pagamento de salários. Aqui dentro a gente grita e não tem socorro. Precisamos de uma perícia para saber o que aconteceu. Se a gente não conseguia curar quem tem câncer, agora não podemos nem diagnosticar se o paciente tem câncer ou não", explicou a médica.

O fisioterapeuta Victor Zamora, que se estudou no Pedro Ernesto, onde trabalha há dez anos, estava inconsolável.

"Para quem foi residente aqui, como eu, a situação é torturante. O atendimento feito no Pedro Ernesto sempre foi de excelência, mesmo tirando leite de pedra. Trabalhamos aqui com as mãos e o coração. Devo tudo o que aprendi a esta instituição. Dói demais ver o que está acontecendo. Faremos uma manifestação no dia 29, no Maracanã, para chamar a atenção das autoridades para o que está acontecendo", protestou.

O presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze, esteve na unidade e se solidarizou com os profissionais do Hospital Pedro Ernesto.

"Estas pessoas que trabalham aqui - e trabalham com muita dedicação - são contratadas por empresas privadas que prestam serviço para este hospital. Se o governo do Estado não repassa o dinheiro, a responsabilidade não é dos funcionários, mas da empresa que contrata, que em vez de buscar junto ao governo a reparação deste dano, o pagamento devido, deixa de pagar o salário. Pune o servidor que não tem nada com isso. O contrato entre a empresa e o governo do Estado tem regras para o caso, por exemplo, de quando o governo deixa de pagar. A empresa tem que procurar o Judiciário, mas prefere o caminho mais fácil e mais perverso, que é deixar de pagar os salários. É um crime o que está acontecendo aqui", disse Darze.

O Diretor Geral do hospital, Edmar Santos, através de nota, admitiu que a unidade vive, desde o final de 2015, uma de suas maiores crises. E que não houve modificação no quadro. O hospital não receberá novos pacientes e realizará cirurgias apenas dos que já estão internados. Já a Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia informou que não há previsão para realizar o pagamento às empresas terceirizadas que prestam serviço à unidade.

"Quando o povo foi às ruas antes da Copa pedir dinheiro para saúde e educação, teve gente que debochou. O Ronaldo (atacante) disse que não se fazia Copa com hospitais. E agora? Como a gente fica?", resumiu Maria Lúcia Campos, moradora de Vila Isabel, que acompanhava os protestos na porta do Pedro Ernesto.

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