Por karilayn.areias

Rio - Só mesmo o tempo para transformar o impossível em possível. O ortopedista Lídio Toledo Filho, 42 anos, que ficou paraplégico, em 2007, após ser baleado em tentativa de assalto, superou todos os prognósticos pessimistas e foi além. Não só voltou a realizar cirurgias, como já consegue operar de pé. “Comprei uma cadeira de rodas que me deixa em pé. Fico amarrado nela, preso em cintos, mas livre para fazer o que mais gosto, que é operar”, contou ao DIA, o médico que não anda, mas que ajuda as pessoas a andar melhor. Ele é um dos três médicos do mundo que fazem isso. Os outros dois trabalham nos Estados Unidos.

A Clínica Santa Lúcia%2C em Botafogo%2C e o Quinta D’or%2C São Cristovão%2C fizeram adaptações para o médico que trabalha em condições especiaisJoão Laet / Agência O Dia

Especialista em joelhos, Lidinho, como é conhecido, já realizou mais de 600 cirurgias desde que ficou paraplégico. Mas até outubro do ano passado, só conseguia operar sentado. Com a nova cadeira, venceu um grande obstáculo. “Tem cirurgia que não dá pra fazer sentado. Tem que ver o alinhamento por cima, se o ângulo está certo, tem que ver tudo. É muito melhor operar em pé, não tem comparação com ficar sentado”, explica.

Foi a paixão pela profissão que levou o médico a buscar alternativas para desempenhar melhor o seu papel. “Ficar me lamentando não ia ajudar em nada, não traria meus movimentos, só ia me fazer mal, me deixar revoltado, com raiva. As pessoas têm que fugir disso”, aconselha. O primogênito do famoso médico da seleção brasileira tricampeã de futebol, Lídio Toledo (1933-2011), continua se aprimorando. Voltou a cursar o mestrado em Engenharia Biomédica na Coppe/UFRJ. “Tenho potencial de desejar infinito. Se hoje terminar algo que sonhava, já vou almejar outra coisa. Não vou ficar parado”, afirma.

Para quem achava que ele estava acabado, Lídio Toledo Filho provou o quanto o ser humano é capaz de se reinventar. “Voltei a trabalhar sete meses e 28 dias após a lesão. Mais dois meses e retornei às cirurgias”, conta o médico, que teve apoio de hospitais como a Clínica Santa Lúcia, em Botafogo, e o Quinta D’or, São Cristovão, que fizeram adaptações nos banheiros dos centros cirúrgicos para o médico que trabalha em condições especiais. “Foi muito bacana da parte deles. Dentro da sala de cirurgia, não foi preciso mexer em nada, eu me viro”, garante o médico, apaixonado pela profissão e fanático pelo Botafogo. 

Cadeira especial possibilita que o médico fique em pé nas cirurgiasReprodução

Médico não morreu por pouco

Lídio Toledo Filho tinha 35 anos quando sofreu uma tentativa de assalto, no Alto da Boa Vista. Ele ia para a casa de um amigo festejar a virada do ano quando dois jovens, em uma motocicleta, mandaram o médico parar. Lídeo tentou escapar, foi perseguido e bateu com o carro. “Foi muita covardia. Um dos bandidos chegou bem pertinho”, lembra. A mulher, que viajava ao seu lado, também foi baleada, mas ficou bem. Lídio foi alvejado três vezes. Duas balas atingiram o antebraço e a mandíbula. “terceira bala entrou pelo hemotórax esquerdo, atravessou parte do meu pulmão, explodiu meu baço e foi para a coluna, lesou a medula”, explicou o ortopedista, que não morreu por muito pouco. 

'Não vou botar um paciente em risco. Faço tudo com segurança’

Apesar das dificuldades, Lídio Toledo Filho esbanja confiança. “Não quero provar nada para ninguém. As pessoas podem interpretar o que faço como heroísmo, mas para mim é uma coisa muito natural. Não estou forçando a barra em nada. As pessoas que enfrentam revezes semelhantes ao que enfrento, talvez não façam as coisas por medo. Mas sou um médico preparado. Não vou botar um paciente em risco por achar que posso fazer. Faço tudo com muita segurança”.

O doutor , entretanto, reconhece que precisa cuidar mais de si mesmo. “Tenho que fazer mais fisioterapia, malhar mais, emagrecer. Não andar engorda, independentemente de se comer muito ou pouco. O curioso é que dou duro com meus pacientes, cobro deles. Mas é aquela coisa: faça o que digo, não faça o que eu faço”, brinca o médico.

Segundo ele, tão logo voltou a clinicar, alguns pacientes estranharam o fato de o ortopedista estar na cadeira de rodas. “Mas as pessoas sabem do meu trabalho. Eles não procuram a Clínica Lídio Toledo, mas a mim. A associação ao nome do meu pai ajuda, mas <MC0>no decorrer do tratamento ganho a confiança das pessoas”.

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