Por adriano.araujo

Rio - Os investimentos do município em cultura vão subir o morro. A promessa é da Secretaria Municipal de Cultura, que em até dois meses lançará dois editais, destinando pelo menos R$ 1 milhão para atividades culturais nas favelas. O anúncio foi feito por Rômulo Sales, gerente de teatro da secretaria, durante o 6º debate da série ‘Rio, Cidade Sem Fronteiras’, organizado pelo DIA e o ‘Meia Hora’ no bar, restaurante e mercearia Caliel, no Salgueiro, quinta-feira à noite, tendo como tema ‘Produção Cultural nas Comunidades’.

Um dos editais, prometidos durante sua participação no debate, é o ‘Cultura Viva.’ “A ideia desse projeto é potencializar as manifestações que já existem nas favelas. É necessário disputar o orçamento cultural da cidade”, explicou Rômulo. O outro é o ‘Fomento Carioca’, criado especificamente para atender às necessidades das comunidades. “Não será de menos de R$ 1 milhão”, prometeu.

Rômulo (prefeitura)%2C Ingrid (Firjan)%2C Balocco (O DIA)%2C Emerson (Caliel)%2C Alan (Os Balas) e Jorge (Observatório de Favelas na mesaErnesto Carriço / Agência O Dia

Na mesa, agitadores culturais do Salgueiro falaram de seus projetos. Emerson Menezes, um dos criadores do ‘Quintas Poéticas’, sarau de poesias que acontece uma vez por mês no Caliel, reclamou da falta de espaços. “Já temos o direito de ir e vir assegurado pela pacificação. Agora é a hora de incentivar a cultura, com novos espaços”, pediu, em sua intervenção.

Mesmo reprimido, o funk ainda é uma das principais manifestações culturais das comunidades. Ainda assim, o batidão nem sempre é bem visto por conta do preconceito. Luan ‘Bala’, do coletivo ‘Os Balas’, que organiza festas na comunidade, já teve problemas. “Fizemos festa semana passada que teve mais de mil pessoas no morro. Mas não usamos o nome funk. É difícil, pois há preconceito.”

A iniciativa privada também marcou presença no debate. Fabiana Scherer, gerente de cultura da Firjan, falou da importância de realizar ações que resgatem a história das comunidades e de mantê-las em contato entre si. “Tivemos a presença de pessoas de outras comunidades no Salgueiro, como Fallet e Prazeres. O DIA está de parabéns pela iniciativa”, elogiou.

Evento teve até grafitagem

Enquanto o debate acontecia, uma surpresa. O grafiteiro Ema, do coletivo Fábrica de Arte e Cidadania, grafitou uma das paredes do imóvel onde fica o Caliel, na subida da comunidade. Convidado a participar, Ema preferiu deixar sua marca. A iniciativa fechou com chave de ouro o evento.

“Ele tem uma filial da Fábrica de Arte e Cidadania aqui no Salgueiro e é muito requisitado. Mas só vai onde quer”, disse Emerson Menezes. “Eles estão em negociação para grafitarem o paredão do restaurante”.

Ema é um dos líderes da Fábrica, que era a equipe grafiteira oficial do grupo ‘O Rappa’ até bem pouco tempo. “Este grafite foi uma honra para nós”, encerrou Emerson.

Parede recebeu flores após a intervenção de EMA no SalgueiroErnesto Carriço / Agência O Dia

Para ONG, ‘produção na favela não é folclore’

Romper os limites criados entre asfalto e favela. Essa é a ideia de Jorge Luiz Barbosa, da ONG Observatório de Favelas, que reforçou a importância de ter contato com manifestações culturais surgidas na comunidade. “Samba, candomblé, funk, capoeira são expressões autênticas, negras. A cidade do Rio é maravilhosa porque é negra”, comentou Jorge, professor doutor da UFF.

“Muitas vezes a favela é tratada como um lugar de carência. O que produzimos aqui, é tratado como folclore”. Para ele, as favelas são espaços onde a cidade ‘se renova e se atualiza”, e suas manifestações culturais precisam ser entendidas por quem as produz. “A favela é universal. Aqui, cultura não é só o que tem selo e vem formatado”, defendeu.

Mas nem só de funk e samba vive a cultura do Salgueiro. Para o jovem compositor e violonista Isac Leão, 18 anos, falta investimento em outros estilos musicais. Ele se apresentou poucas vezes na comunidade, e reclama da falta de espaços e investimentos. “Alguns projetos já existem e estão dando uma nova cara para o Salgueiro. O dinheiro da Secretaria de Cultura pode criar novas ideias e ajudar as que existem”, opinou.

Público lotou o evento e participou ativamente%2C com perguntas e observações sobre o tema proposto Ernesto Carriço / Agência O Dia

Crias do Salgueiro, TIC-TAC enfim estreiam no morro

As dificuldades para se produzir cultura em comunidades ficaram claras logo no início do evento. Pela primeira vez em três anos de existência, as dançarinas do ‘Bonde das Tic-Tac’ se apresentaram no Salgueiro. As meninas, convidadas para abrir o ‘Rio, Cidade sem Fronteiras’, cantaram quatro músicas e juntaram dezenas de moradores para vê-las em ação. “Parece incrível, mas nunca nos apresentamos aqui na comunidade”, contou Denise Moraes, que quando sobe no palco incorpora a ‘Morena.’ “Fiquei emocionada por dançar aqui. Foi uma oportunidade única”, comemorou.

Sobre o anúncio da Prefeitura, que vai destinar verba pública para injetar na produção cultural das favelas, Denise gostou. “Achei muito boa a promessa de se investir na cultura das comunidades, porque elas não têm quase nada e há muitos jovens sem ter o que fazer”, pregou.

As meninas já colecionam fãs no YouTube e são conhecidas no circuito funk da periferia. Em casa, porém, nunca conseguiram autorização do comando da UPP para se apresentarem. Denise, que além de dançar, também canta, contou que o grupo fatura, a cada apresentação, de R$ 300 a 400, mais as despesas com passagens. Ela é irmã do MC Taco, e prima das irmãs Ariane e Andressa. A administração da carreira é feita pelos tios de ‘Morena’.

Além dos problemas com a UPP, Denise conta que as meninas do seu bonde também precisam lidar com o preconceito contra as mulheres no mundo funk. O machismo, segundo ela, é adversário na luta pela inserção do ritmo no cenário cultural do Salgueiro.

“Não é porque uso roupa curta, danço provocando e canto funk que o meu caráter pode ser julgado por alguém”, afirmou, convicta. “Quando saio do palco, deixo de ser a Morena e volto a ser a Denise”.

Ariane%2C Andressa e Denise durante o show do Bonde das Tic-Tac%2C na abertura do debate no Salgueiro Ernesto Carriço / Agência O Dia


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