Por daniela.lima

Rio - Enquanto o carioca do asfalto sofre com o lixo espalhado pelas ruas, deixando expostas toneladas de material reciclável descartado sem o menor cuidado, na favela ele vira dinheiro. Acostumados a lidar com o problema desde pequenos, moradores de três comunidades arregaçaram as mangas e, sem ajuda oficial, transformaram os resíduos em fonte de renda e educação ambiental — uma dobradinha que faz a diferença para quem vive em encostas e sabe o quanto um lixão pode ser fatal. 

Cris%2C na entrada do Morro dos Prazeres%3A trabalho que une reciclagem com educação ambiental completa um ano no próximo dia 23André Luiz Mello / Agência O Dia


“Começamos com 100 kg no primeiro mês, há um ano, e em fevereiro chegamos a 700 kg coletados”, conta Zoraide Gomes, a Cris dos Prazeres. À frente da ONG ReciclAção com mais quatro fiéis escudeiros, ela espalhou pelo Morro dos Prazeres gigantescos sacolões para coletar garrafas PETs, latas e embalagens longa vida. Ao mesmo tempo, orienta os moradores sobre a importância do trabalho para se evitar a instabilidade das encostas com os lixões — tragédias que se espalham pelas favelas devido às deficiências crônicas de coleta.

“Já temos R$ 10 mil em caixa que usaremos na recomposição do Campinho”, continua Cris. A região a que ela se refere ainda tem sinais do antigo lixão que durante décadas foi usado cpelos moradores.

O projeto de Cris não tem ajuda oficial e se mantém de pé graças ao apoio da BR Foods, multinacional de alimentos que encontrou em suas ideias um projeto sustentável para apoiar. “Já são mais de 50 sacolões espalhados por todo o morro. Se hoje eu consigo coletar 700 kg por mês, quero chegar a 3,5 toneladas até o fim do ano”, sonha.

Faz sentido. Liderança consolidada na favela, onde vive há décadas e desenvolve um trabalho de prevenção a doenças infecto-contagiosas, Cris prepara novo salto para transformar o morro em ‘case’ de sucesso: a coleta de óleo de cozinha. “Só estamos nisto há um mês, mas já conseguimos 40 litros”, diz.

A moradora Edilene Ferreira assina embaixo. Ela conta que a separação do lixo em orgânico e reciclável passou a fazer parte de sua rotina há um bom tempo. E elogia a iniciativa.

“Tenho quatro filhos, dois adolescentes e duas crianças. Todos já sabem que é preciso separar o lixo lá em casa”, diz, orgulhosa com o exemplo que a favela está dando nestes dias difíceis para quem vive na cidade formal. “Peguei o costume. A gente joga tantas coisas fora e nem percebe o valor que elas têm.”

CONTRA TUDO

Na Mineira, ajuda da ‘boca de ferro’

Se no Morro dos Prazeres a ajuda vem de uma multinacional, no Morro da Mineira a coleta seletiva sobrevive graças à disposição de Paulo Ferreira, o Paulo Reciclador. Incansável e zeloso pelos três pontos onde recolhe lixo reciclável na favela do Catumbi, Paulo tem duas prensas industriais e recolhe, em média, 2,5 toneladas de PETs a cada três meses. Ele aposta que o apoio da Associação de Moradores vai alavancar seu negócio. 

“A partir do mês que vem vou trocar um quilo de PET por pás e escovas para incentivar os moradores”, diz ele. Para aumentar sua produção, que vende para uma empresa parceira, aposta na força da ‘boca de ferro’, como os moradores da favela chamam o sistema de comunicação interno pelos alto-falantes. “Tem muita coisa que eu não pego e que segue misturado nos caminhões da Comlurb. Quero pegar este lixo.”

O anjo da guarda da Formiga

No Morro da Formiga a solução foi planejada para outro problema: impedir que carcaças de geladeiras, fogões e microondas acabem nos rios da favela. “Temos dois pontos e, quando o morador vai se jogar fora, me chama”, conta Luís Carlos Martins, o Negão, 46 anos de vida e de Formiga, no negócio há sete anos. “O pessoal do asfalto desperdiça muito lixo.” Reflorestador da favela, diz que recolher o ferro-velho é biscate. “Dá para tirar uns R$ 200 por mês. Importante é evitar as enchentes.”

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