Barreira do Vasco e da Holanda

Gringo adota a favela e conquista moradores com trabalho voluntário e biscoitos de melado

Por thiago.antunes

Rio - Na Barreira do Vasco, a figurinha mais carimbada não é a de um local — é a do holandês Fabian Flores, 29 anos de vida e quase cinco de Rio. À vontade na favela, ele anda pra cima e pra baixo vendendo uma iguaria que enlouquece os moradores: stroopwafels, tradicionais biscoitos holandeses recheados com doce de leite que, no Brasil, ganharam um toque tropical com o uso de melado de cana.

“Eu dava para os amigos quando minha mãe me mandava. Como eles adoravam,pensei: por que não vendê-los?” O negócio hoje vai tão bem que Fabian procura revendedores — por encomenda ou de porta em porta, ele vende em média 100 unidades por dia, a R$ 1,00 cada.

Mas como um holandês que estudava Negócios Internacionais no seu país, projetava uma carreira sólida e tinha vida estável, veio parar no Rio? Ao ouvir falar de uma ONG que trazia estrangeiros para trabalhar aqui, não pensou duas vezes. “Comecei a me perguntar se aquilo que fazia na Holanda era realmente vida, que diferença eu faria em meu país. Não quis ficar preso ao sistema”, conta o filho de chileno com holandesa. 

A ONG citada, no caso, é a Iko Poran, que busca voluntários em todo o mundo também para trabalhar nas favelas cariocas — à época sem UPPs e mergulhadas em histórias típicas de territórios abandonados pelo poder público. “Os escolhidos para construirmos as casas viviam em barracos de madeira, com muitos filhos, ou eram deficientes, idosos.”

Fabian e oferece biscoitos a Carolina%2C Adrian e Fabricia (alto)na porta da casa de Adriana Barcelos%2C uma das sete que ele ajudou a reformar Paulo Araújo / Agência O Dia

Ao dizer sim para a vida voluntária, Fabian optou por ficar um mês no Rio, mas simplesmente não conseguiu ir embora. As crianças, carentes de amor e afeto, foram fundamentais para que tomasse a decisão que mudaria sua vida para sempre. Agora prepara o casamento com uma moradora da comunidade, e reforma o barraco que comprou na sua Barreira. Problemas? Só se a Holanda enfrentar a Seleção Brasileira na Copa...“Espero que isso não aconteça, porque não vou ficar em dúvida. Vou torcer para o meu país.”

Dona Adriana Barcelos, com seus cinco filhos, uma das sete famílias que ele ajudou, não vai ficar triste. Afinal, na Barreira do Vasco o ídolo é holandês.

Em vez da Copa, verbas para Educação

A Copa no Brasil divide o holandês. Ao mesmo tempo em que está feliz por ver um evento deste porte no país, Fabian pensa que o dinheiro poderia ter sido investido em outras áreas. “Saúde, Educação e infraestrutura”, aponta.

Para ele, a Educação de base é a única maneira para se atacar, realmente, a criminalidade. “O lado social é muito esquecido. Tem que oferecer perspectivas de futuro para as crianças.” Ele reclama da falta de continuidade de ações governamentais, o que não acontece em seu país. “Não sei se há vontade para melhorar as coisas na favela. Só a UPP não resolve, é maquiagem.”

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