Rio - “Quero ver o malabarista, que equilibra os pratos e não deixa eles cairem.” A frase do pequeno João Gustavo, 7 anos, na fila de espera para assistir a um espetáculo do Festival Internacional de Circo, virou a mais perfeita tradução da tarde de alegria e circo que invadiu Nova Brasília nesta sexta-feira, no Complexo do Alemão. Olhos grudados no trio do ‘Le Cirque Democratique de Belgique’, adultos e crianças festejaram a alegria do sorriso fácil e pediram bis. Mas quem saiu feliz mesmo foi o belga Gab Bondewel, 37 anos.
“É bom vir à favela. São crianças que não têm oportunidades de assistir a um espetáculo”, contou o ator principal da companhia, que completa um ano no final de junho. “A gente tem muita sorte de estar aqui.”
Tem mesmo. A alegria nos olhos de Raíssa Lima, 6 anos, é testemunha. Pulando de um lado para outro, ela não desgrudava da mãe, Gilvaneli. Quando o palhaço Sader de Cuyper ameaçava saltar numa piscina vazia — o ponto alto do espetáculo, com direito a rufar de tambores — ela revirava os olhos. “Não quero olhar, não quero olhar!”, dizia. Mas olhava. E ria com a trapalhada que não dava em nada.
“As crianças daqui são muito entusiasmadas”, emenda Gab, que já rodou o país em três oportunidades, mas ainda não havia experimentado uma favela. “Vocês são um país muito diferente. Ou as pessoas têm tudo, dois carros, casas, comida, ou nada.” Gab talvez não saiba, mas seu número com os pratos citado por João é o retrato do país. Se um deles cair e quebrar, alguém vai reaproveitá-lo. Até quando?