A lição de vida de Antoine do ‘Cantagalô’

Após sete meses no morro, estudante francês que ensinou jovens da favela a andar de skate volta para Paris

Por felipe.martins

Rio - Formado em Química pela Universidade de Grenoble, o francês Antoine Willm, 21 anos, não pensou duas vezes ao ser convidado a trocar o conforto do asfalto pela vida no Cantagalo, em dezembro. O que ele não poderia imaginar é que, sete meses depois, voltaria para a França deixando uma legião de jovens agradecidos por ter encontrado alguém que desse liga na relação morro/asfalto ensinando os meninos a andar de skate.

“Olha só tio, já sei mandar um ‘Ollie’”, conta Caíque Lopes, 11 anos, o ET, enquanto treina no piso do acesso ao elevador que liga a favela à Rua Teixeira de Melo, em Ipanema. O ‘Ollie’, no caso, é manobra simples do esporte. Tal simplicidade, no entanto, incentivou Caíque, André Nascimento, Wallace Silva e mais de 30 meninos do recém-criado Favela Skate Clube a seguirem o gringo pelas vielas da comunidade.

Antoine(d) e seus pupilos numa das quadras onde improvisam manobras e correm risco à beira do barrancoAndré Balocco / Agência O Dia

“Vocês que torçam para a França não encontrar com o Brasil na final da Copa”, brinca o gringo. “Lembram de 98? Vai ser igualzinho!” A aventura de Antoine começou quando ele desceu para andar de skate no asfalto, em seus primeiros dias de morro, ao ser abordado por um jovem, que pedia para dar uma volta. “Eu deixava um, e logo surgia outro, e mais outro, e outro. Aí resolvi ensiná-los”, conta Antoine, que criou o Favela Skate Clube, com página no Facebook administrada pelos ‘sucessores’ Fernando Carvalho e Igor Caetano, de 15 anos. “Nossa ideia é evitar que a molecada fique de bobeira na rua”, diz Fernando.

Sábado, Antoine se despede do Brasil, após concluir sua Pós-Graduação na PUC. O coração, porém, fica no ‘Cantagalô’. “Na favela, eu conheci a cultura de vocês.”

Antoine aprendeu tudo muito rápido, inclusive o jeitinho brasileiro. Escondeu dos pais que havia trocado o asfalto pelo morro mas, quando eles decidiram visitá-lo, desistiu da mentira. Medo? “Quem tem medo da favela são os brasileiros”, diz. “Meus pais ficaram na minha casa e se impressionaram com os meninos me seguindo. Onde passo sempre me perguntam se vai ter aula. Quem sabe volto um dia.”

Jovens pedem pista no morro
O assédio da garotada despertou a solidariedade do francês. Ao perceber o potencial dos jovens — e a falta de oportunidade da favela —, Antoine gravou video e criou uma campanha que resultou no envio de dezenas de peças para montar 50 novos skates — todos distribuidos na favela. “Queremos uma pista no Cantagalo”, conta Fernando Carvalho.

A estratégia de Antoine começou na Galeria River, onde ficam várias lojas de skate. Duas aceitaram seus cartazes pedindo doações. Assim, manteve acesa a esperança das crianças até a chegada do material do exterior. Uma coisa, porém, incomoda Antoine: a omissão de quem tem o poder de ajudar. E ele sabe do que fala. Nos sete meses de morro, bateu em todas as portas que, teoricamente, eram as certas para ajudar no sonho da pista. “Mas ninguém cumpriu as promessas e desisti.” Ainda bem, Antoine. Se não fosse você os meninos do Cantagalo ainda estariam a pé. Merci!

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