Por bferreira

Rio - Não é só o fato de ser negra que faz aumentar a chance de ter problemas na gravidez, como O DIA mostrou ontem na reportagem sobre os altos índices de morte materna na Baixada — a sexta da parceria com a Casa Fluminense. A falta de informação também. Exemplo disso é Marta Roberta dos Santos, 19 anos, grávida de cinco meses do terceiro filho. Até agora, ela não fez um único pré-natal.

Marta%2C de vermelho%2C acalenta o filho em casa%3A ela está na terceira gestação. Já Priscila relembra o mau atendimento que teve na maternidade Cacau Fernandes / Agência O Dia

Marta vive de mês em mês com os R$ 600 que ganha para olhar placas de um político local o dia inteiro. Após o trabalho, volta para a casa que divide com a mãe, o padrasto, o irmão e seus dois filhos — todos de pais diferentes — em São João do Meriti. “Ainda não tive tempo de marcar”, justifica.

Mesmo tendo feito consultas nas gestações de Kethlyn, 2 anos, e Pedro, 1 ano, ela desconhece os problemas que pode ter pela falta do exame. Quando tem visita ela recebe no quintal, onde ficam o sofá e alguns bancos, além do banheiro.

“Depois do dia 5 eu vou”, promete ela, que não sabe como vai sustentar a família após a eleição: os R$ 600 são a única renda da casa, além dos R$ 200 mensais que seu padrasto consegue fazendo bicos. Sua mãe, Romilda, de 48 anos, foca sua alegria no trabalho da filha e intensifica as preces por um milagre. “Oro todos os dias pedindo a Deus uma mudança, uma bênção.”

O semblante muda repentinamente quando ela lembra da primeira gestação de Marta, então com 16 anos. “Foi muito maltratada no Hospital de Acari, porque gritava de dor e mandavam que ela calasse a boca. Lá ainda era cheio de mosquito e quando voltamos, pegamos dengue”, conta Romilda, que recebe o assentimento de Marta. “Meu sonho é poder ter uma casa um dia”, muda de assunto, enquanto leva o neto de um ano para dormir na cozinha, onde fica a cama de casal que conseguiu para as crianças não ficarem no chão em que ela e o marido dormem. “Essa casa era dos avós dele.”

Ainda coberta por telhas de barro, a residência tem várias rachaduras nas paredes e vigas. “Quando chove, dá medo de dormir aqui. Quem sabe na próxima eleição algum político ajude.”

Maus-tratos com grávidas, um problema antigo

Os relatos de maus-tratos feitos pela mãe de Marta são os mesmos que Priscila Fernandes, de 24 anos, presenciou há seis meses, quando Isabelle nasceu na Associação de Caridade Hospital de São João de Meriti.

“Vi uma moça que gritava o dia inteiro e eles só mandavam ela calar a boca. Diziam que na hora em que fez o filho, não gritou. Ela caiu no chão e chorou muito. Só aí fizeram a cesárea”.

Com medo, a dona de casa moradora de Meriti ficou quieta e, mesmo sentindo contrações, foi bem tratada. “Os médicos fazem todo mundo sofrer, te deixam lá sozinha.” Os relatos da violência psicológica lembram o problema que a cuidadora de idosos Evanil Lino Francisco, 63, de Nova Iguaçu, enfrentou há 40 anos: “Na época, só tinha maternidade em São Cristóvão.” Mesmo tendo feito pré-natal e grávida de nove meses, a obstetra duvidou que ela estivesse realmente grávida: “Achou que era mioma. O supervisor dela mandou auscultar minha barriga e perguntou se aquilo era mioma.” Como tinha sido orientada antes, Evanil não gritou. “De brinde, ganhei uma Coca-Cola.”

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