Debate do DIA reúne lideranças negras: 'O preconceito está escondido'

Bate-papo discute racismo, ampliação de cotas, igualdade e importância do Dia da Consciência Negra

Por adriano.araujo

Rio - O grito de liberdade de Zumbi dos Palmares, em novembro de 1695, ainda ecoa pelo Brasil. Hoje longe dos grilhões da colônia, a consciência negra faz do debate sobre igualdade sua maior bandeira, pedindo ampliação das cotas, qualificação no mercado de trabalho, acesso a bens de consumo e ‘choque de conscientização’ sobre o racismo velado. Com o tema ‘O Negro e a Inclusão’, o DIA faz sua terceira reportagem da série Zumbi do Brasil, agora reunindo lideranças negras. O bate-papo com os jornalistas André Balocco e Luiza Gomes juntou Dudu de Morro Agudo, do Enraizados, de Nova Iguaçu; Cris dos Prazeres, do Proa/Reciclação; Itamar Silva, do Ibase, e Marcelo Paixão, do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais, da UFRJ.

ODIA: Como vocês viram a agressividade nas redes sociais durante o período pré e pós-eleitoral? Houve racismo ali?

ITAMAR: Esse momento simplesmente revelou, jogou na cara do brasileiro, quem nós somos, sem máscaras. Por muito tempo, embalamos essa ilusão de que a nossa sociedade é cordial, não tem preconceito e, na verdade, esse preconceito está escondido. Ele pode aparecer em algumas situações, quem é negro sabe disso... Mas nessas eleições isso explodiu de forma muito explícita, em uma quantidade, um volume, que não deu para ninguém se esconder.

DUDU: As redes sociais mostraram o quanto as pessoas estão sem pudor, ao menos nesse ambiente. E nisso a gente consegue ver coisas que não conseguia antigamente. E que, no entanto, sempre existiram. O racismo é uma delas.

Da esquerda para a direita: Itamar%2C Marcelo e Cris%3A debate na redação do DIA Carlo Wrede / Agência O Dia

ODIA: Quais outras ocasiões em que o racismo se mostra com nitidez?

DUDU: Já notei isso em restaurante, shopping, aeroporto... Existem lugares que teoricamente não eram para o negro estar. Quando começamos a entrar nesses locais, os frequentadores começam a agir como se dissessem ‘pô, mano, volta para o seu lugar!’ Antigamente era só rico que andava de avião. Quando você via um preto, era um ou outro, artista. Hoje, a favela também é aeroporto: a negada fazendo show em outro estado, funkeiro viajando o Brasil inteiro, isso choca.

ITAMAR: Se o negro vai à Zona Sul ou Barra, é só olhar quantas famílias negras estão lá almoçando... Às vezes saio com meu filho, e a gente fica contando... Cadê os meus iguais? É uma força o tempo inteiro para se impor, altivo, quase que preparado, porque os olhares se cruzam... Todo o tempo. Não é possível achar normal que os negros não possam circular nesses espaços de uma forma tranquila... Por isso, o rolezinho incomoda profundamente. Porque no shopping só é permitido o preto arrumadinho, ou com amigo branco. Se enviezar um pouco, vira pânico coletivo.

ODIA: Há racismo no Brasil?

ITAMAR: Alguns diriam que não, mas claramente há uma reação quando discutimos as cotas raciais na universidade, por exemplo. É impressionante como o cara, às vezes acobertado pelas redes sociais, fala coisas violentas, e que mostram quem é esse brasileiro, que bate nas suas costas como se suportasse essa convivência mas que, quando você se aproxima para disputar o que é seu de direito, se incomoda. Aí está a perversidade da sociedade brasileira. Ela faz parecer que o mínimo que o governo faz para o negro, ou para outras classes, pareça um mal para a sociedade. ‘Olha como estão querendo acabar com a qualidade do ensino universitário’. O Bolsa Família também, quando entra na discussão, a reação é ‘olha como o governo passa a mão na cabeça dos pobres, como estimula a preguiça’. E assim faz com que aquele que é portador desse direito, se sinta envergonhado.

"Antes era só rico que andava de avião. Preto%2C era um ou outro"%2C diz Dudu de Morro AgudoCarlo Wrede / Agência O Dia

MARCELO: Existe racismo no mundo, e a sociedade brasileira está inserida no mundo. A sociedade brasileira não é um outro planeta... O país é inserido em um sistema mundial em que, desde há muito tempo, a cor da pele é um instrumento utilizado para produzir relações de sujeição, dominação, espoliação. Isso não é próprio apenas da sociedade brasileira... É um mecanismo para diferenciar os que tem, os que não tem, os que podem, os que não podem, os que vão ter poder... A cor é um instrumento de produção de classe social. As pessoas têm uma determinada aparência física e, a partir disso, são ‘convidadas’ a ocupar diferentes espaços dentro da pirâmide social. Tenho 70% da mão-de-obra trabalhando como empregada doméstica, as mulheres negras; 75% dos peões, homens negros. São relações que se reproduzem entre gerações.

ODIA: E as políticas atuais, ajudam?

MARCELO: Muito lentamente... É só você perguntar para todos que vivem em áreas de comunidades em que eles trabalham...

O DIA: E a nova geração?

MARCELO: Essa, talvez, possa ser beneficiada pelas cotas... Mas temos que levar em consideração as diversas perversidades ao longo do caminho. A primeira é o desestímulo à continuidade no sistema escolar. Se você é jovem, homem, negro, entre 15 e 17, não vai encontrar um em cada cinco estudando na série correta, no ensino médio. Ou está em defasagem ou fora da escola, trabalhando. Se sair para o mercado tão precocemente, vai encontrar profissões de baixa remuneração. Parte dessa mão de obra é excedente, que será convidada a fazer ‘coisas que não devem’.

ITAMAR: Tem um cálculo certo para isso, mas se seguirmos da forma como estamos hoje, com esse baixo percentual de cotistas entrando nas universidades, provavelmente só nivelaremos isso daqui a uns 200 anos... E quando ele se forma, vai enfrentar outra barreira: a do mercado. Você carrega esse peso, essa marca, quando vai disputar uma vaga...

CRIS: Dois parâmetros são importantes: o momento cultural e político que o país vive e, alinhado a isso, a consciência dessa juventude de ser sujeito de direito. Vejo hoje a quantidade de jovens do (morro do) Prazeres que se mobilizam para fazer o Enem, que briga por uma escola de qualidade, que não reclamava antes, e diz “até hoje não tive aula de química, ‘tô’ quase no meio do ano, cadê o professor?” Esse cara se empodera de um direito, diferente de antes, em que aceitava as coisas. Ele briga porque sabe que essa aula de química que não teve vai fazer falta quando chegar na universidade que ele hoje almeja, e sonha estar.

MARCELO: Essa juventude negra, das periferias, é vista ainda como um problema social. É como se a gente pegasse uma mina de ouro e dissesse “nossa, estou com essa mina de ouro aqui, isso é um problema. Não sei o que fazer com a mina de ouro, acho que vou jogar no lixo.” Aí, em vez de transformar aquilo que é mais precioso e potencializar um projeto de Nação generoso, entende aquilo como um estorvo... Quando essa moçada tiver condições de se assenhorar, inclusive dominando tecnologias mais avançadas de comunicação, encontraremos um novo quadro, diferente daquele ao qual as elites brasileiras nos condenaram. É trazer de onde está a energia criativa da nação, no seu próprio povo, para transformar essa realidade.

ODIA: O racismo está enraizado no brasileiro?

DUDU: Enraizados não, é o nome da ONG (risos). Olha, tenho uma filha de 14 anos que é o termômetro disso... Hoje ela não sofre tanto com esse negócio de que “preto é feio”, mas isso porque quando era pequena, sempre teve bonecas pretas, brancas. Na época sentia que ela deixava de lado as pretas, queria só as barbies... E eu perguntava para ela “por que você não brinca com as negras?” E ela “porque preto é feio”. Uma criança de 4 anos te falar isso... E aí: quem falou isso para ela? Aí eu chamava a avó e perguntava. Sua vó é feia? Ela: “Não.” Tenho que desconstruir todo dia o que a TV e a sociedade constroem na cabeça dela...

ODIA: E como dar consciência do racismo a quem não sofre com ele?

ITAMAR: Nosso papel é revelar que o problema existe, sem camuflar. Não é para afastar ninguém que suba o Santa Marta para curtir o samba. Não, queremos que eles venham, mas com a consciência de que precisam se comprometer com a transformação dessa realidade racista e classista, se comprometer com a parcela dolorida dessa história. Tem que ser parceiro nessa perspectiva, não só na festa, mas também na hora de discutir as cotas raciais na USP, mudar forma de seleção para as vagas de emprego... Aí é uma forma de ampliar essa cumplicidade na sociedade, e de sermos mais iguais...

ODIA: Qual é a importância do Dia da Consciência Negra?

MARCELO: O dia 20 de novembro está, aos poucos, substituindo o 15 de novembro como uma data pública do Brasil, pelo teor do debate.

Domingo: Renda do negro é 85,3% menor

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