Policiais que atuam em UPPs terão aulas sobre a história das favelas

Convênio com a prefeitura, que começa na Maré, visa melhorar relação com moradores

Por adriano.araujo

Rio - Os PMs que trabalham nas UPPs vão aprender sobre as favelas onde atuam. A decisão, tomada pelo comando da corporação para ajudar na integração com os moradores, será oficializada este mês, com a assinatura de um convênio com a prefeitura. Os primeiros policiais a terem aulas sobre as características culturais, geográficas e história da formação das comunidades serão os que atuarão na Maré a partir de julho, data marcada para o Exército deixar a favela.

Chefe do Estado-Maior da Polícia Militar, coronel Robson Rodrigues aposta na proximidadeAndré Balocco / Agência O Dia

“A ideia é qualificar o policial com as informações. Ele vai poder entender, rapidamente, a demanda de cada local dentro da favela”, conta o chefe do Estado-Maior da Polícia Militar, coronel Robson Rodrigues. “A PM será um vetor de mudanças.”

O curso já está formatado pelo Rio + Social, programa do Instituto Pereira Passos que vem mapeando as favelas pacificadas desde a implantação das UPPs. Serão 36 horas no total, com turmas de 25 alunos cada, e os professores, em sua maioria, agentes de campo da prefeitura, irão até as UPPs para darem as aulas. Os temas serão cultura, formação, aspectos sociais, tecido social, serviços, iniciativas culturais e gestão pública, além da definição de responsabilidade dos órgãos. “A prefeitura tem uma equipe fantástica, com dados preciosos. São parceiros”, aposta Robson, ex-coordenador das UPPs.

Diretor do Observatório de Favelas, com sede na Maré, Eduardo Alves aprovou o que considera um avanço nas relações entre policiais e moradores. Crítico da militarização da segurança, o Observatório das Favelas coordena várias ações no complexo para evitar que a chegada dos policiais se transforme apenas na ocupação do território.

“Acho muito bom que isso aconteça”, diz o sociólogo. “Respeitar a cultura do outro ajuda a melhorar o convívio. Não só os policiais, mas toda a sociedade precisa conhecer a diversidade da cidade em que vive. Assim não se tenta impor um modelo cultural único”, pondera Eduardo.

As negociações começaram ano passado e aceleraram em janeiro, após a posse do governador Pezão e a troca de comando na PM.

Prefeitura aposta em integração

?Diretor do Rio + Social, Pedro Veiga diz que o convênio revoluciona o relacionamento entre poder público e favelas. “Vai gerar informação para a tomada de decisão e impactar na integração das políticas públicas”, diz.

Ele conta que o curso foi formatado para ser utilizado por todos os agentes públicos. E que, antes dos policiais, será ministrado aos agentes de saúde da prefeitura. “É simples. Numa favela, por exemplo, tem esgoto e água, mas num determinado local, não. Isso gera tecidos sociais diferentes, e as pessoas são impactadas por este aspecto urbano”, acredita. “Onde está tudo bem, OK. Já onde está ruim, a Dona Maria fica chateada e sofre as consequências”, conclui.

?'UPP do Asfalto' também terá aula

A proximidade com a população que, espera-se, será gerada com as aulas do programa Rio + Social, também acontecerá no asfalto. O convênio entre prefeitura e Polícia Militar incluirá lições sobre os bairros onde serão instalados as Companhias Integradas de Policiamento Preventivo, conhecidas como ‘UPPs do Asfalto.’ A primeira delas, na Praça Verdun, Grajaú, tem 138 policiais recém-formados, que estão sendo entrevistados por uma equipe do Centro de Estudos de Cidadania e Segurança Pública (Cesec), da Universidade Cândido Mendes. A ideia é monitorar o comportamento da tropa e os efeitos do trabalho mensalmente.

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