Por bianca.lobianco

Rio - Principal porta de entrada no Brasil dos escravos africanos, o Cais do Valongo, redescoberto durante as obras de derrubada da Perimetral, na região do Porto, vai virar Patrimônio da Humanidade. O anúncio foi feito pelo subsecretário de turismo do município, Philipe Campello, durante o debate ‘O turismo como ferramenta de inclusão nas favelas’, terça-feira, no Tabajaras — realizado pelo projeto ‘Rio, Cidade sem Fronteiras’, do DIA. Segundo Philipe, o legado do negro e das favelas para a cultura do país é imenso.

“Fala-se muito da favela como um problema social, mas é inquestionável a importância de sua produção na formação da cultura brasileira”, disse ele, que passou a semana em reuniões com representantes da Unesco para a oficialização do título. “O samba, a bossa-nova, a comida. Tudo passa pela favela.” Ao fazer o anúncio, Phil foi aplaudido de pé pela plateia formada por cerca de 60 pessoas — a maioria empreendedores de turismo nas comunidades.

A candidatura do Valongo é trabalhada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e a prefeitura há um ano e meio, e sua aprovação é dada como certa por Milton Guran, coordenador do grupo que prepara o dossiê pró-Valongo. “A expectativa é que isso aconteça em janeiro do ano que vem.”

Além de Philipe, estiveram na mesa Carmem Givoni, que leva grupo de estrangeiros ao morro dos Prazeres; Fabiana Ramos, do Sebrae; Gilmar Lopes, da Agência Tabritur de turismo radical no Tabajaras, e Lorene Maia, gestora no Pavão, Pavãozinho e Cantagalo do Rio + Social, programa da prefeitura para favelas.

Primeiro orador, Gilmar anunciou a criação de tours rápidos pelo Tabajaras, atendendo a demanda dos visitantes que virão ao Rio para a Olimpíada. “Quem vier terá pouco tempo para visitar as favelas”, explicou. “Queremos que o estrangeiro entre e consuma no morro, e não os ‘safáris’ que haviam na Rocinha.”

Carmem Givoni relatou a importância da criação do Caminho do Grafite no Prazeres. Segundo ela, acreditar nos sonhos é fundamental. “Antes era impossível levar estrangeiros à favela por razões que nem preciso relembrar”, disse, referindo-se ao poder paralelo que dominava os morros.

“Pesquisas indicam que um a cada cinco estrangeiros querem conhecer uma favela no Rio. É preciso nos adaptarmos às suas demandas. E o Caminho do Grafite fortalece outras iniciativas no Prazeres.”

Sebrae vai reunir favelas e operadoras

Fabiana Ramos, do Sebrae, anunciou durante o debate que a instituição fará, ainda neste semestre, uma rodada de negócios para incentivar parcerias nas favelas. A ideia é convocar agências e operadoras de turismo para escutar suas demandas e levá-las aos produtores das comunidades mapeadas.
“Depois, vamos juntar as partes. O diagnóstico, assim como a troca de informações, é fundamental para a evolução.”

O Sebrae planeja ainda atrair a mídia especializada “para que conheçam a rede que formamos”, diz ela, referindo-se à Rede de Conexão de Turismo (Contur), que une iniciativas da Rocinha, Mangueira, Santa Marta, Tabajaras, Prazeres, Turano, Salgueiro e os complexos do Alemão e da Penha.

Além disso, a instituição ainda prepara a segunda edição do Guia de Bolso das Comunidades, ideia que virou realidade no fim do ano passado, com o circuito gastronômico das favelas. “Vamos fazer a segunda edição.

Crítica aos ‘safáris’ e valorização

Durante o debate, uma crítica geriu unanimidade: a forma que o turismo ‘de safari’ começou a ser feito na Rocinha. “Nunca me senti à vontade com isso, um grupo chegava de jipe, nem descia, muitas vezes o dinheiro que deixava naquela era o do ‘pedágio’”, afirmou Philipe Campello.

O ativista Charles Siqueira, na plateia, destacou os ‘safáris’ na hora das perguntas. “Reforçavam o esteriótipo de pobreza. É preciso valorizar seu território.” A gestora do Rio+Social Lorene Maia destacou que para ocorer a valorização territorial, é preciso antes se conhecer o potencial turístico de cada lugar. Mesmo próximas, cada favela tem sua vocação. “A do Cantagalo é para o de hotelaria”, cita ela, apontando que antes da chegada dos estrangeiros os moradores construíram hostels.

O fotojornalista Jaguaracir Alves, do Tabajaras, lembrou o potencial da sua favela. “Podemos fazer turismo religioso, com visitas à Igreja de São Benedito.” E sugeriu a criação de um roteiro religioso unindo as favelas, já que todas têm igrejas. Para Lorene, o grande desafio do turismo em favelas é a falta de comunicação. “Às vezes o morador da Sá Ferreira não sabe o que acontece no Pavão, mas o do Alemão sabe e vai ver a dança no morro.”

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