Por nicolas.satriano

Rio - Sabe aquela barca grande, com ar-condicionado, que fica a maior parte do tempo atracada na Estação Araribóia? Então, a partir desta quarta-feira ela será mais utilizada. Pelo menos é o que promete o secretário estadual de Transportes, Carlos Osorio, que determinou que ela faça três viagens a mais por dia.

Com isso, agora serão 16 saídas, todas nos horários de pico. A notícia chega dois meses depois de a Pão de Açúcar entrar em operação assistida (uma espécie de fase de testes). Porém, a decisão é motivo de preocupação. Afinal, será que existe demanda para uma embarcação tão grande? Qual o real custo operacional do sistema? E quem vai pagar esta conta?

Professor da UFF, Aurélio Lamare Soares Murta é enfático: “A tendência é diminuir a taxa de ocupação.”

O especialista em Mobilidade Urbana diz que é como se o governo tivesse trocado um carro de categoria popular 1.0 e sem ar-condicionado por um veículo 2.0 de luxo.

A nova barca fará mais três travessias diariamente. Mas especialistas acreditam que não há demandaAlexandre Brum / Arquivo Agência O Dia

“É claro que vai ter mais conforto, mas agora tem que saber é quem está disposto a pagar. Acho difícil conseguir um número de pessoas que viabilize esta operação. E aí o próprio governo vai ter que subsidiar. Mas como fazer isso com esta crise financeira? Não é preciso ser gênio para ver que conta vai acabar com o usuário”, disse.

Osorio rebate as incertezas com números. No primeiro mês de operação, a média de ocupação da nova barca, que tem capacidade para 2 mil pessoas, estava em torno dos 30%. “Conseguimos melhorar este desempenho. Hoje, estamos perto dos 50%”, comentou.

De fato, em abril foram 229 viagens, com 214 mil passageiros. Uma média de 934 passageiros. O especialista em mobilidade urbana da Uerj, Alexandre Rojas, apresenta um cenário para a diferença de resultado.

“Tem as obras da Avenida Brasil. O engarrafamento aumentou nos acesso à Ponte. Aí o passageiro evita o carro particular e o ônibus. O fato é que a compra destas barcas novas foi um equívoco. A demanda foi dimensionada para cima. Mas agora já está feito. E o Osorio tem que arrumar uma função para ela”, destacou.

E, neste sentido, Osorio anuncia que a CCR vai começar uma campanha de comunicação para aumentar o número de usuários. “Esta é uma prova de fogo. O sucesso desta barca só vai ser possível se o passageiro entender que ela é a melhor opção. Isso sem contar que ainda vamos ganhar a integração com os ônibus na Praça XV”, enfatizou.

Agora, a meta é elevar o número de pessoas transportadas por dia para 110 mil, cerca de 10% a mais. “É mais ou menos o que representa a queda de procura pelos ônibus”, completou. 

Negociação na mira do MP

Ao todo, outras cinco embarcações de 2 mil lugares e duas com capacidade para 500 pessoas chegarão até o primeiro semestre de 2016. Os equipamentos, fabricados na China, foram adquiridos por cerca de R$ 300 milhões pelo estado.

Depois que O DIA publicou que a nova barca era grande demais para as estações, entre outros problemas, o contrato que deu base ao ‘negócio da China’ está sendo investigado pelo Ministério público. O projeto foi feito por técnicos da secretaria estadual de Transportes durante a gestão do ex-secretário Júlio Lopes.

Se ficar comprovado que houve improbidade administrativa na transação, o dinheiro pode ser devolvido aos cofres públicos.

O custo para operar as novas barcas chega a ser 50% maior do que das antigas, o que aumentaria o prejuízo da concessão — que já bateu a marca de R$ 110 milhões nos últimos dois anos. 

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