Por julia.amin

Rio - Queimados já não é mais a mesma. Com festivais de teatro, intervenções artísticas nas ruas, apresentações de monólogos, saraus, rodas de leitura, sessões de cinema e música comentada, a cidade fervilha com atividades culturais gratuitas. O nome por trás do movimento é Leandro Santanna, de 35 anos, ator, produtor e diretor da Companhia Teatral Queimados Encena.

Santanna garante que a população quer espetáculos de qualidade e cobra mais investimentos públicosCarlo Wrede / Agência O Dia


O grupo fundado por Santanna é formado por oito profissionais, existe há dez anos e já tem 18 montagens no repertório. “Faço o que faço por um desejo muito grande de criar possibilidades para mim e para a cidade”, diz, sobre sua motivação.

E as possibilidades criadas pelo produtor já são muitas. Este ano, de abril a maio, encenou gratuitamente a peça ‘O Médico à Força’, de Moliére, em praças de oito bairros de Queimados, como Santo Expedito e Santa Rosa. “A Baixada é carente de aparelhos públicos culturais. O estigma de que as pessoas daqui só consomem ‘baixa cultura’ é um engano”, argumenta. Ele relembra o sucesso da experiência. “O público aprovou e pediu mais”, diz.

O espaço ocupado pela companhia, alugado há seis anos, era apenas depósito de figurinos e local de ensaios. “O projeto se expandiu e passou a atender à demanda reprimida”, avalia.

A sede, que abrigou, por exemplo, o I Festival Fluminense de Monólogos, recebe diversos grupos teatrais. Santanna ainda equilibra, em sua longa lista de atividades, aulas semanais de artes cênicas que comanda, gratuitamente, para duas turmas.

O ator vai para São Paulo em novembro com a comédia ‘Favela’, sucesso de público no Rio, onde se apresentou para mais de 1.600 pessoas. Apesar da agenda cheia, ainda ocupa uma cadeira no Conselho Municipal de Cultura.

Sobre a dificuldade de viver da arte, é taxativo. “As dificuldades são enormes, especialmente na Baixada. Mas, quem tem interesse, seja em qualquer carreira, terá que ultrapassar obstáculos. Quem batalhar, vence”, diz.

Uma paixão que começou na infância

O namoro com o teatro começou cedo. Aos 9 anos, Leandro Santanna estreou sua primeira peça. “Ele fazia o personagem do leão em um texto que criei para as turmas”, conta Eurídice Ambrosio, de 54 anos, que deu aulas de teatro e dança no Centro Educacional Manuel Pereira, em Queimados.

O talento para encenar já era notório. “Era um menino comunicativo e percebi que tinha queda para teatro por que se dedicava muito”, diz a ex-professora.

Agora professor, Santanna vê em seus alunos, como a estudante Grazielle da Silva, 23, o amor que o levou aos palcos. “Estou gostando muito e perdi a timidez. O Leandro é muito paciente”, explica a moça.
Eurídice, a distância, se diz orgulhosa. “Ele um vencedor!”, conclui.

Viradão é o novo projeto

O futuro parece reservar realizações para Leandro Santanna, que busca inspiração em nomes como o ator Milton Gonçalves e o produtor Faustini. Entre os novos projetos, está mais uma edição do Festival de Monólogos. “Estamos firmando parcerias e conseguindo patrocínio”, diz o diretor, que vai atuar em dois espetáculos em 2014: ‘A Incrível Viagem’ e ‘Dom Quixote’.

Em dezembro, ele vai promover um viradão cultural com 20 atrações da Baixada, durante toda a madrugada, no Sesc de Nova Iguaçu.

Santanna é também um dos coordenadores do projeto Observatório Baixada, que vai mapear ações de cultura na região. “Ainda faltam políticas públicas sérias para descentralizar a cultura. Enquanto isso, a gente batalha”, filosofa.

Reportagem: Larissa D'Almeida

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