Sonho de Candeia, Quilombo quase vai por água abaixo

Roda de samba vai tentar levantar fundos para recuperar local

Por O Dia

Rio - O som do samba deu lugar a um silêncio triste na sede do Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, em Acari. O local, fruto do sonho do compositor Antônio Candeia Filho de ter um espaço para valorização da cultura negra, foi devastado por uma enchente no dia 10 de dezembro, que também prejudicou muitos moradores da região. Em meio aos destroços, Selma, filha de Candeia, busca forças para reerguer o local. “O sonho dele é o meu compromisso”, garante.

A água subiu mais de dois metros. Quando escoou%2C a surpresa%3A uma geladeira estava presa no tetoCarlo Wrede / Agência O Dia

Tia Diná não conteve o choro ao falar do Quilombo, no qual trabalha há 15 anos. Ela é responsável por um projeto social que dá aulas de reciclagem e de reforço escolar para crianças da região. “Perdemos tudo, não gosto nem de lembrar. Já choveu muito aqui, mas nada parecido com isso”, contou, mostrando as marcas da água da chuva, que atingiram mais de dois metros de altura.

GELADEIRA E VIOLÃO

Selma e Tia Diná calculam que sete geladeiras e freezers se perderam — uma está até hoje presa no teto, após ter flutuado. Computadores, mesas,cadeiras e mais de 20 instrumentos de corda, entre violões e cavaquinhos, também foram destruídos pela água.

O fato de ter passado parte da vida em uma cadeira de rodas não impediu Candeia de ser um lutador em defesa das tradições do samba. Sem lamentar suas condições físicas, ele pedia, num partido alto: “Quem for rezar por mim, que o faça sambando”. É nessa lógica que, no sábado, uma roda de samba gratuita será realizada na praça Agripino Grieco, no Méier, para arrecadar doações para o Quilombo. Alimentos e materiais de limpeza também serão aceitos.

Em reverência a Candeia, Luiz Carlos da Vila escreveu que “a chama não apagou, e nem se apagará”. A música serve de inspiração a Selma neste momento difícil. “Quando escuto esses versos, lembro do ideal do meu pai. Não posso desistir”, resume, deixando claro que “no tempo em que o samba viver, o sonho não vai se acabar, e ninguém irá esquecer Candeia”.

Festa em Oswaldo Cruz para o bamba

Após levar 70 mil pessoas às ruas no ano passado, o bloco Timoneiros da Viola homenageará Candeia no desfile deste ano, em Oswaldo Cruz. A ideia partiu de Paulinho da Viola, destaque do bloco em 2012.

“Todo mundo gravou músicas do Candeia. Ele compôs com Cartola, Paulinho da Viola... É um dos grandes do samba. Vamos enaltecê-lo”, afirma Vagner Fernandes, presidente do Timoneiros.

A insatisfação de Candeia com os rumos da Portela o levou a fundar o Quilombo em 1975, ao lado de bambas como Nei Lopes, Wilson Moreira, João Nogueira e Paulinho da Viola. O objetivo era resgatar e preservar a memória do samba, mesma proposta do Timoneiros, segundo Vagner: “É uma filosofia: só homenageamos e tocamos samba”.

“O momento do Quilombo é difícil e não é de hoje. Não tem nenhum apoio ou visibilidade. É preciso mostrar o espaço para quem não o conhece”, indicou Vagner.

A festa já tem data para acontecer: dia 23 de fevereiro, um domingo, na praça Paulo da Portela, em Oswaldo Cruz. Além do Timoneiros da Viola e do Quilombo, também será dia da Feira das Yabás, com comidas típicas do subúrbio carioca. Será, como cantou Candeia, um “dia de graça”.

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