Produção de café artesanal sobrevive em Duque de Caxias

Apesar da falta de incentivo, cultivo familiar de grãos naturais, em Xerém, resiste ao tempo e faz o maior sucesso

Por O Dia

Duque de Caxias - As rugas no rosto de Sebastião Fideles, 56 anos, não escondem os anos de trabalho no campo. Único produtor artesanal de café de Duque de Caxias, ele cultiva os grãos naturais nas terras de Xerém, que fazem o maior sucesso na Baixada. “Clientes de outros municípios se deslocam para Caxias apenas para comprar meu café”, festeja o agricultor.

Mas saborear o grão artesanal não é uma tarefa fácil. Uma vez por mês, Sebastião, conhecido como Senhor do Café, vende há três anos o produto na Feira de Orgânicos realizada no Caxias Shopping. Em 20 minutos, não sobra nada. “Eu e minha família nos preocupamos em extrair o melhor da raiz”, explica.

Sebastião Fideles é o único produtor de CaxiasFabio Gonçalves / Agência O Dia


Aos sábados, o produto é vendido na Feira da Mantiqueira, em Xerém. A terceira opção é mais
complicada. É preciso ir até o Sítio do Café, na Estrada do Ribeirão 50, no bairro Vila Velha, onde
Sebastião cultiva e colhe os grãos. Cada quilo custa R$ 8.

Cliente de carteirinha, o empresário Laércio Fontes da Silva, 32 anos, conta que não há como
resistir ao café de Sebastião. “Compro sempre três quilos de uma vez. O gosto é diferente, pois é
feito de maneira natural. Dá para sentir o aroma de longe”, destaca o morador de Caxias.

O agricultor conta que o sucesso é fruto de uma tradição familiar. “Aprendi todo o processo com meu pai, que veio da Itália para o Brasil e, na década de 70, se mudou para Xerém. Ele me ensinou a técnica e o resto aprendi na prática diária”, revelou.

Num sítio de 14,4 hectares (cerca de 144 mil metros quadrados), Sebastião planta dois mil pés de
café e colhe por ano 1.200 quilos de grãos. Segundo a Emater, o local tem capacidade de produzir 14,4 toneladas por ano.

Sebastião lamenta, no entanto, a falta de incentivo governamental para aumentar a produção. “Planto e colho com minha família. Não tenho acesso às políticas para a agricultura familiar”, diz ele.

Mesmo sem investimento, Sebastião pretende também plantar aipim para aumentar a renda. “Ganhamos pouco só com o café (R$ 400 por semana). Ainda mais agora que empresas que fabricam o produto estão crescendo.

Antes, quando as produções não eram totalmente industrializadas, era mais fácil”, destaca. Segundo a prefeitura, o agricultor não participa dos programas municipais de incentivo porque não cumpre todas os critérios burocráticos.

Impasse entre a prefeitura e a Emater

O único agricultor de café de Caxias está no meio de um impasse entre a prefeitura e a Emater — órgão do governo do estado que presta assistência técnica e promove extensão rural a agricultores — que o impede de avançar com a produção cafeeira.

Para o secretário de Meio Ambiente, Agricultura e Abastecimentos, Luiz Renato Vergara, o fato de o terreno estar no nome da mãe de Sebastião, Helena Fideles, 85, o descredencia a participar das políticas públicas de incentivo. “A documentação não está em dia, portanto não pode, ainda, receber os benefícios”, afirma o secretário Luiz Renato.

Já a Emater garante que ele se enquadra nas normas. “Não há irregularidades no cadastro que temos. É preciso apenas estar filiado a um grupo formal ou informal de agricultores que seja legalizado”, disse o coordenador Carlos Pedro Toledo.

Rotina de agricultor começa às 5h e só termina às 22h

Por trás da fama do café de Tatão, como Sebastião também é conhecido, há um longo processo até chegar à xícara dos consumidores. Ele começa sua rotina às 5h e só termina às 22h. Por volta das 6h já está no cafezal acompanhado do irmão, João Fideles, para espalhar as sementes de café pelo solo. A planta, que tem preferência por solos bem drenados, demora em média um ano e meio para alcançar o ponto de colheita.

Quando os frutos vermelhos substituem as folhas — ponto máximo da produção — é chegada a hora de retirar os grãos. Ele diz que a melhor época do ano para uma colheita farta é entre maio e agosto: “O importante é saber o ponto certo para evitar o desperdício. Apenas os grãos maduros podem fazer parte da seleção”, orienta o agricultor.

Depois da colheita, os grãos são espalhados no terreiro para a secagem — processo que dura aproximadamente três semanas. Em seguida é feita a lavagem e a separação das sementes. Nesta etapa, são eliminadas as impurezas típicas da roça: folhas, torrões, paus, terra e pedrinhas. “Colocados na água, os melhores grãos boiam, enquanto os frutos verdes — não indicados para a produção — afundam e são descartados”, explica Sebastião.

O trabalho braçal continua. Após o mergulho, as cascas e polpa do fruto são retiradas. O fogão a lenha feito pela mãe dele é o responsável por torrar o café. Por fim, o produto é triturado lentamente por uma máquina da década de 50 que foi reajustada por ele. “A partir daqui é só ensacar e esperar que o pó chegue à mesa do freguês”, conta ele, que, ao olhar sua plantação pela janela da sala do sítio, relembra os bons momentos que o café já lhe proporcionou quando tinha tempo: “Eu e meus irmãos adorávamos prosear. O aroma perfumava a casa, nos despertava do sono e tornava as conversas agradáveis.”

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