Por marlos.mendes

Rio - Para beber água, a vendedora de salgados Silmery Correia dos Santos, 33 anos, grávida de três meses, anda três quilômetros até chegar a uma torneira pública em Jardim Gramacho, Duque de Caxias. Assim como a vendedora, 1.500 moradores — 30% dos cinco mil de oito comunidades da região — vivem na extrema pobreza, segundo levantamento da ONG Teto, com base em dados do IBGE. Eles não têm água encanada, esgoto, banheiro e energia elétrica.

“Quando acaba e bate a sede, no sol ou na chuva, só andando”, lamenta Silmery. Ela e o marido Sidcley da Silva Santos, 39, catador de material reciclável, não têm carteira assinada nem terminaram o Ensino Fundamental. O casal é o perfil da maioria dos moradores que vivem bo entorno do antigo Aterro Metropolitano, fechado em junho de 2012.

Moradores têm que caminhar até três quilômetros para apanhar água potável para beber e higiene pessoalDivulgação

Ainda segundo o estudo, realizado no fim de 2013 com 652 famílias e publicada agora com exclusividade pelo DIA, mais de dois terços (74,8%) das moradias não possuem água encanada; apenas 4% dos lares têm energia elétrica de forma regular; e 95% das casas não estão conectadas à rede de esgoto.

O levantamento também constatou que só 10,3% das pessoas maiores de 25 anos terminaram o Ensino Fundamental. E, pior, que 38,3% dos adolescentes entre 15 e 17 anos não frequentam qualquer instituição escolar.

Quando comparados aos números de Duque de Caxias ou aos do Rio, os dados ganham contornos mais dramáticos. Em Caxias, por exemplo, mais de a metade (54,9%) dos maiores de 25 anos terminou o Ensino Fundamental; e, no Rio, o percentual é de 70,5%.

Silmery, entretanto, está entre os 89,7% do bairro que não concluíram o primeiro segmento educacional e faz parte do grupo dos 49,5% que não têm carteira assinada. No município, só um quinto (18,7%) das pessoas está na mesma situação. No Rio, o índice é menor: 14,1%.

“Não bastasse isso, as casas da região são muito precárias e, quase todas, sem nenhum tipo de acesso aos serviços essenciais, como água, esgoto e energia”, constata Ariel Macena, diretor operacional da ONG no Brasil, que no último mês construiu na localidade 14 casas pré-fabricadas emergenciais.

Prefeitura promete casas

A família de Silmery Correia dos Santos foi uma das 14 que receberam, em abril, casas pré-fabricadas da Teto, no Jardim Gramacho. Antes, ela morava “num barraquinho”, pelo qual pagava R$ 70 de aluguel. Embora hoje esteja abrigada, sua casa permanece sem água, sem esgoto e sem energia elétrica.

A situação dela, como a de outras famílias, não tem prazo para mudar. Procurada, a prefeitura afirmou que prevê para o segundo semestre a inauguração de escola técnica, em parceria com a Faetec. Também informou que apresentou projeto ao governo federal para reassentar famílias em 1.500 unidades que serão construídas pelo Minha Casa, Minha Vida.

Família de Silmery foi uma das 14 que receberam em abril casas da ONG TetoDivulgação

Vida piorou após fim de aterro sanitário

?O fechamento em junho de 2012 do maior aterro sanitário da América Latina, em Jardim Gramacho, em vez de melhorar, agravou a situação dos moradores. “As pessoas estão com dificuldades para se sustentar. O lixão era a fonte de renda delas”, explica Ariel Macena, da ONG. Nos cerca de 1,3 milhão de metros quadrados, trabalhavam 1,7 mil catadores. Na época, eles receberam indenização de R$ 14 mil.

Vários deles, porém, voltaram ao lixo, trabalhando, no entanto, em vazadouros clandestinos, que, conforme mostrou O DIA em janeiro, são comandado pelo tráfico de drogas. De lá até aqui, nada mudou. Prometida após a denúncia, a instalação de uma central de monitoramento para impedir a entrada de caminhões com lixo não saiu do papel. E os aterros não fecharam.


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