A cultura da Baixada que vive de reconhecimento e carinho do público

Com pouco investimento, grupos de teatro da região sobrevivem graças a doações e produções de espetáculos

Por O Dia

Rio - Por trás de cada prêmio conquistado pelos grupos de teatro da Baixada Fluminense, há um árduo esforço que antecede as montagens dos espetáculos. Com pouco investimento na cultura da região, eles sobrevivem pelo amor à arte. “O nosso maior orgulho é quando vemos o reconhecimento e o carinho do público”, ressalta Cesário Candhí, de 47 anos, coordenador e ator da Companhia de Arte Popular de Duque de Caxias.

O desejo do grupo Arte Popular de Caxias é ter uma sedeEstefan Radovicz / Agência O Dia

Composto por cinco integrantes e com 17 prêmios no currículo, o principal objetivo do grupo de Caxias é criar uma sede. “Ainda não temos um lugar específico para ensaios e apresentações e mesmo assim fazemos um trabalho de qualidade que tem dado bons resultados”, conta o diretor musical do grupo, Beto Gaspari, 51.

A equipe sobrevive de doações e produções de espetáculos. Entre eles, o mais premiado ‘A Incrível Peleja de Simão e a Morte’, que sempre acompanhou a companhia desde a fundação, em 1997.

Em cima da Biblioteca Comunitária Oscar Romero, no Centro de Mesquita, funciona o Teatro de Bolso Cássia Valéria — um espaço adaptado, ainda em construção, que comporta 70 pessoas. Além de ser o único da cidade, lá também é a sede do Grupo Cultural Cochicho na Coxia de Mesquita, que se ergueu com a ajuda do comércio local, e hoje realiza oficinas e apresentações teatrais no espaço.

Com 38 integrantes e 12 anos de estrada, o conjunto realiza o Projeto de Inclusão pela Arte — iniciativa que, de acordo com a produtora cultural do Cochicho na Coxia, Thaissa Vasconcelos, 25, consiste na inserção de um intérprete de libras (linguagem para deficientes auditivos) para traduzir os espetáculos do grupo. “Além de formadores de cultura, precisamos ter uma conscientização social e participar na inclusão cultural de qualquer tipo de pessoa”, ressalta Thaissa.

Desde quando passou para ciências sociais na Universidade Federal Fluminense de Campos dos Goytacazes, Mariana Coelho, 19, ex-moradora de Mesquita, tem que se deslocar por 9h de ônibus para participar das apresentações e dos ensaios da equipe. “O laço que tenho com o grupo é mais forte”, diz ela que desde criança sonha em ser atriz. “Quando terminar essa graduação, pretendo cursar, ainda, Artes Cênicas”, planeja.

O Cochicho na Coxia%2C de Mesquita%2C que começou com patrocínio do comércio local%2C hoje realiza montagensEstefan Radovicz / Agência O Dia

Companhia de Artes Cênicas seleciona 60 alunos após testes

O investimento cultural na Baixada dá passo à frente em Nova Iguaçu. Este mês foi montada a primeira Companhia de Artes Cênicas financiada por órgão público na região. Cerca de 350 pessoas participaram das audições que selecionaram apenas 60 alunos. Eles vão receber aulas de canto, dança e interpretação com uma equipe de quatro professores.

“Temos muita gente boa na cidade e queremos dar visibilidade a essa quantidade de talento diversificada. Além disso queremos um grupo para representar Nova Iguaçu em festivais e apresentações pelo município e, também, fomentar a cultura na região”, diz o diretor da nova companhia, Marcelo Borghi, de 50 anos, 25 deles de carreira.

As expectativas são grandes. O professor de Literatura Luiz Guarnier, 34, que será responsável pelas aulas de interpretação, já tem algumas ideias em mente. “Podemos fazer um trabalho muito especial porque temos uma equipe grande e de várias faixas etárias”.

Para o coreógrafo Márcio Paulino, 26, a iniciativa representa ‘uma abertura de portas’. “Vamos explorar mais o lado profissional”, diz.

Já Diego Soeiro, 26, integrantes da companhia, encara o projeto como uma oportunidade. “O teatro é mágico e eu sempre quis fazer parte dessa magia”.

Os integrantes da Casa de Cultura de Nova IguaçuEstefan Radovicz / Agência O Dia

Japeri: grupo dá oficinas a jovens

Formado por diversos artistas da Baixada, o Grupo Cultural Código se formou em 2005, em Japeri, a partir do projeto ‘Tempo Livre’, criado pelo Sesc Rio em parceria com o Grupo Nós do Morro para gerar pólos de cultura na região.

Depois disso, o grupo, patrocinado pela Petrobras e composto por oito integrantes, começou a realizar oficinas culturais de teatro, dança, circo, audiovisual, canto e desenho. “Lembro que, enquanto ensaiávamos, crianças se penduravam em muros e quase caíam de tanta gente para nos ver encenando. Com isso, as chamamos para participar dos ensaios. Assim começaram as oficinas”, recorda Bruno Medsta, 33, diretor do Código.

“O maior desafio é manter o espaço, que é alugado. Nosso objetivo é levar cultura ao povo de Japeri” conta Jorge Braga, 28, coordenador de projetos do grupo.

Eles pretendem montar temporada gratuita de oito apresentações para a formação dos alunos do workshop. No sábado (dia 19), eles estreiam, às 19h, no Espaço Cultural Código, na Rua Davi 397, no Nova Belém, em Japeri, o espetáculo ‘Censura Livre’ — uma adaptação da peça ‘Liberdade, Liberdade’ de Flávio Rangel e Millôr Fernandes. A entrada é gratuita. E domingo (dia 20), às 19h, eles estarão no Sesc Rio, em Copacabana, com o mesmo espetáculo.

Artistas do Grupo Código estreia espetáculo no próximo sábadoEstefan Radovicz / Agência O Dia

O teatro como arte e uma opção de vida

Na Companhia de Teatro Tudo Vira Cena, em São João de Meriti — fundada na década de 80 —, o trabalho vai muito além. Para estimular a economia criativa do município, eles já encaminharam para o mercado cerca de 70 profissionais. Entre eles, o ator mirim Nicolas Paixão, que participou da novela ‘Cheias de Charme’, da TV Globo, como o Patrick, filho de Taís Araújo e Marcos Palmeira.

“Muitos querem usar a companhia como ponte para alavancar a carreira de ator e aparecer em novelas e filmes. Acima de tudo, somos formadores de cidadãos que saibam aproveitar melhor o território em que vivem”, ressalta o diretor do grupo, Marcelo de Almeida, de 58 anos.

Aos 14 anos Luciana dos Santos entrava para o projeto. Hoje, com 23, é uma das professoras. “É a minha segunda casa. Depois de tanto tempo, tenho uma relação muito especial com o espaço”.

Há dois anos trabalhando com a MC Rihanna da Baixada, Bianca Ribeiro, 24 anos, decidiu fazer parte da companhia para ter um auxílio na carreira musical. “Quero aprofundar meus conhecimentos para me posicionar melhor no palco. Cantar é a minha paixão”, conta ela, que já gravou a música ‘Baby Vem. Não para’ — sucesso nas redes sociais em Meriti.

As aulas são realizadas no Complexo Cultural Kenedi Jaime%2C em MeritiEstefan Radovicz / Agência O Dia


Últimas de _legado_O Dia na Baixada