Por ramon.tadeu

Rio - Nem todos do grupo gostam de política, mas cada um deles tem apreço especial pelas campanhas eleitorais. Compositores, instrumentistas e intérpretes da Baixada, emprestam o talento para criar melodias que grudem na cabeça do eleitor.

E garantem: um jingle bem feito pode ser decisivo. De quebra, ganham renda extra com o serviço. De acordo com o candidato, a produção envolve mais de 20 pessoas e custa R$ 120 mil; em outros casos, são cinco pessoas a preço bem mais em conta.

Compositor há mais de 50 anos, Afrânio Melo é um dos autores de ‘Praia de Ramos’, gravado por Dicró, mas se tornou especialista em jingles. “Já compus centenas em diferentes gêneros, mas o samba é o que faz mais sucesso e o mais requisitado. É um ritmo nacional e que fala com o coração do povo”, diz ele, um dos autores do jingle de Marina Silva quando ela concorreu ao Planalto em 2010.

Este ano, Afrânio compôs oito melodias, incluindo a do senador Marcelo Crivella, candidato ao Palácio Guanabara. Se hoje ele “pegou a técnica” e os jingles “saem fácil”, antes o compositor se enrolava com a demanda.“Teve uma eleição em que precisei fazer mais de 30. Confundi-me e compus dois com a mesma melodia para candidatos da mesma cidade, mudando só a letra. Passei a campanha torcendo para que o jingle do candidato ‘x’ não tocasse no bairro do candidato ‘y’. Foram semanas de tensão. Graças a Deus ninguém reclamou até hoje”, gargalha.

O cantor e instrumentista Robinho dos Teclados, por sua vez, conta que, numa campanha, quase teve o pagamento sustado aos 45 do segundo tempo por uma gafe. No estúdio de gravação, fazia os ajustes vocais no jingle já aprovado de um candidato a deputado estadual.

Ele achou que o político já tinha saído e, ensaiando para pegar o ritmo da música, mudou a letra e cantou: “o número dele você já sabe é três, três, três, mais um muquira para roubar vocês”.
Quando olhou para trás, viu o candidato. “Foi só uma brincadeira. Hoje em dia, somos amigos e acho que ele faz um bom trabalho na política”, contemporiza.

Leandro Alegria é um dos intérpretes da Beija-Flor, de Nilópolis, mas não abre mão de trabalhar gravando jingles políticos. “Cantei pela primeira vez há 10 anos e gostei. É relativamente fácil e dá para comprar uma TV nova para a sala e uma bicicleta para a filha”, garante.

Autores de sambas%2C músicos usam a criatividade para criar melodias políticas. Eles garantem%3A um jingle bem feito pode ser decisivo nas urnasEstefan Radovicz / Agência O Dia

Autores planejam associação de jinglistas

Entre um chope e outro num bar do calçadão de Nova Iguaçu, os músicos cogitaram criar a Associação dos Jinglistas da Baixada. A ideia começou como brincadeira e logo ganhou contornos de seriedade. “Dessa forma, podemos evitar calotes, como o que quase levei ao fazer um jingle para um candidato de Manaus”, apressou-se a dizer André Júnior, lembrando que enviou a música pela internet e quase ficou sem receber por ela.

Já Rômulo Presidente vê outras vantagens com a criação da entidade. Ele prevê que, organizados em grupo, poderão conseguir descontos no aluguel de estúdios e reduzir outros custos. “Além disso, os candidatos já podem ter uma referência na hora de encomendar uma música de campanha”, opina.

A proposta agradou tanto que eles pensam agora em ampliar o trabalho com jingles. “A associação pode fazer com que clientes nos procurem não só nas eleições, mas também podemos ser procurados por empresas interessadas em reforçar a marca”, avalia Afrânio Melo, para quem seria uma forma de trabalhar com jingle o ano todo.

O ritmo dos jingles políticos muitas vezes se assemelha ao de um samba-enredo. Só que, diferentemente das canções que embalam a Sapucaí, escolhidas após competição entre dezenas de compositores, a concorrência para os jingles é menor. Segundo o grupo, os artistas quase sempre são indicados por políticos ou por amigos.

Canções com as palavras renovação e esperança são as mais pedidas

Na Baixada, o jingle ganha mais importância, segundo os compositores. “Aqui, praticamente não tem propaganda eleitoral na TV durante eleições municipais. As pessoas veem mais as propagandas da capital. Sem falar que proibiram os showmícios”, diz Rômulo Presidente.

Para ele, o jingle fica sendo uma das principais ferramentas para apresentar o candidato ao povo.
Para compor as canções, os artistas precisam pesquisar sobre as principais plataformas do candidato. Mas algumas palavras-chave são encontradas em quase todas as músicas. André Júnior explica que, se o político concorre pela primeira vez, palavras como renovação, mudança, transformação e esperança e expressões como “do jeito que está não dá para ficar”, são certas.

Mas, explica, se o candidato tenta a reeleição, as rimas são com continuação, progresso e frases como “em time que está ganhando não se mexe”. Com a receita, ele diz compor jingles em cinco minutos.
João Conga conta que, para seu primeiro jingle, contou com a consultoria de Neguinho da Beija-Flor, que leu a letra com atenção e disse que estava muito comprida. “Ele estava certo. Cortei pela metade, o candidato adorou e conseguiu se eleger”, diz.

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