Por felipe.carvalho

Saltos, malabares e acrobacias têm estimulado a formação de crianças e jovens como educadores sociais. É o caso de Daniel da Cunha, de 19 anos, que vendia bala no trem e agora é acrobata no Projeto Social Circo Baixada, em Queimados. A instituição — que há mais de 12 anos oferece aulas gratuitas de artes circenses — lançou o novo espetáculo que será apresentado nas escolas municipais e instituições que atendem pessoas carentes ano que vem.

A peça ‘Era só Mais um Silva’ aborda a luta dos jovens da Baixada para garantir o sustento de maneira digna sem perder a alegria e a esperança. No espetáculo, quase 100 alunos do projeto Um Trampolim para Inclusão demonstram suas habilidades com malabares, monociclos, acrobacias em camas elásticas e pernas de pau.

Participam do projeto uma psicóloga, uma pedagoga e uma assistente social, que abordam as crianças e as convidam para participar das atividades na lona montada em um terreno cedido pela prefeitura de Queimados no bairro Vila Camorim. Lá, crianças e adolescentes têm contato direto com educação e cultura, enquanto os pais recebem orientação para que tenham condições de mantê-los na escola e em casa.

De acordo com a superintendente da instituição, Nilcilene Moreira, grande parte dos educadores é formada por ex-alunos que tiveram suas vidas transformadas pelo circo. “Eles chegam ressabiados, agitados e até um pouco agressivos, mas, aos poucos, começam a voltar seus pensamentos para coisas boas, descobrem suas capacidades e se tornam mais confiantes. Trabalhamos não só as atividades, mas também as famílias”, diz ela.

Projeto tem hoje 220 alunos e a expectativa é aumentar para 500 em até dois anos. Para participar%2C é preciso ter de 7 e 21 anosEstefan Radovicz / Agência O Dia

Nilcilene explica que o Circo Social Baixada usa a arte circense como inclusão social. Os principais alvos são jovens que tiveram experiências com violência e passaram pelo Conselho Tutelar e abrigos ou viviam nas ruas.
O projeto tem atualmente 220 alunos, e a expectativa é aumentar para 500 em dois anos. Para participar é preciso ter de 7 a 21 anos.

Inscrições são gratuitas e ficam abertas todo o ano

O Circo Social Baixada funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Os integrantes participam em até quatro oficinas por semana. Às segundas e sextas-feiras são as de equilíbrio, como monociclo e perna de pau, teatro e os saltos em cama elástica e no minitrampolim.
Às terças e quintas-feiras há aulas de aéreo com tecido, lira, trapézio, dança e malabares. Às quartas-feiras, a programação tem rodas de conversa, exibição de filmes, palestras e dinâmicas sobre temas diversos.

Há vagas durante todo o ano. Os interessados devem ir à sede do circo, na Rua O 2.597. É preciso levar a Certidão de Nascimento, declaração escolar, atestado de saúde e comprovante de residência. Outras informações podem ser obtidas pelos telefones 2663-2170 e 7851-2103.

Das ruas para aulas de saltos

Daniel da Cunha, de 19 anos, vendia bala no trem e apresentava malabares nos sinais de trânsito para ajudar a família. Ele se formou em educador social e hoje dá aulas de saltos para alunos do Projeto Social Circo Baixada. “Cheguei a dormir na rua. Até fiz pequenos furtos para comprar comida. Hoje, tenho minha carteira assinada e sou o orgulho da família”, diz Cunha.

Ele conta que, na época em que trabalhava nas ruas, lhe ofereceram diversas vezes bebidas e drogas. “Aqui no circo me deram a liberdade e o entendimento do que é certo e o que é errado. Tornei-me um circense de coração. Minha meta é ir para o Circo de Soleil e viajar pelo mundo”, almeja.

Já Lucilayne Nascimento, de 19, vendia amendoim nas praças há sete anos quando entrou para o projeto. “Cheguei a passar fome. Dependia da comida daqui para sobreviver. Dois irmãos vinham pela manhã e os outros três à tarde para termos o que comer no café, no almoço e na janta”, lembra a educadora.

Após um ano no circo, a jovem decidiu vencer a barreira do medo de altura ao entrar no curso de educadora. Hoje, ela é a responsável pelas aulas de aéreo, incluindo as técnicas para tecido e trapézio.

“Hoje em dia, ensino o que tinha mais medo de fazer. O circo mudou minha vida. Quero fazer isso para outras pessoas e, por isso, vou me formar em Serviço Social”, comenta Lucilayne.

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