Está aberta a temporada de festas juninas. Anarriê!

Apesar da falta de incentivo, gruposde dança mantêm a tradição e se apresentam em várias cidades da região

Por O Dia

Rio - É arraiá para tudo quanto é canto e gosto. Em várias cidades, as festas juninas já estão programadas. Mas, para tudo ficar bonito, é preciso dedicação. Os ensaios dos grupos começam em fevereiro e março, sempre aos fins de semana. Na Baixada, são aproximadamente 50 quadrilhas.

“Como grande parte do pessoal trabalha fora, a gente aproveita os fins de semana. De sexta-feira a domingo, nosso tempo livre é dedicado aos ensaios”, explica José Ricardo da Silva, 50, presidente da Fogueirão, de Queimados, fundada há 21 anos. Este ano, o tema ‘Aboio, o canto de um ser tão nordestino nas noites de São João’ vai falar da história dos vaqueiros sertanejos.

Fogueirão%2C de Queimados%2C foi fundada há 21 anosEstefan Radovicz / Agência O Dia

Em São João de Meriti, uma das mais antigas da Baixada é a Corações Unidos Júnior, fundada por Ricardo Paulino há 33 anos. Inicialmente, o grupo era adulto. Mas, em 2010, passou a ser infanto-juvenil, com crianças e jovens de 7 a 17 anos. Como a garotada precisa estudar, os ensaios também são feitos nos fins de semana.

A auxiliar de limpeza Mônica Crispim, 40, mãe de Suellen Crispim, 12, uma das integrantes da quadrilha, é só elogios ao trabalho desenvolvido: “Todo o bairro ama essa quadrilha. As crianças adoram participar e os adultos respeitam tudo o que é feito. É a valorização da nossa cultura que se aprende aqui”, disse sobre o grupo.

Este ano, a quadrilha apresentará ‘Deu a louca no sertão: o casamento da filha de Maria Bonita e Lampião.’
Sem patrocínio, os grupos têm que ‘rebolar’ para arrecadar fundos ao longo do ano para as apresentações. Em média, um desfile de quadrilhas da categoria roça custa de R$ 10 a R$ 12 mil.

Já para as quadrilhas da categoria salão gastam em torno de R$ 30 mil por ano. “A gente faz festa, rifa, feijoada, bingo, tudo o que der para ir arrecadando dinheiro para nos mantermos”, explica Ricardo Paulino.

Em Nova Iguaçu, a quadrilha Renovação Junina é bem mais nova: oito anos. “Todo mundo tem sua profissão, sua casa pra cuidar, um dia a dia corrido, mas estamos aqui, firmes e fortes, no propósito de propagar a cultura dos arraiás, das festas juninas”, diz Wagner Vinícius, 37, presidente do grupo que vai mostrar o tema ‘Se ele é por nós, quem será contra nós? Tudo é uma questão de fé.’

Campeonatos vão até início de agosto

Organizadas em federações e ligas, as quadrilhas juninas participam de competições de meados de junho à primeira semana de agosto. Este ano, a AquaRio, que organiza o campeonato estadual (com quadrilhas da Baixada e da capital), promoverá também uma competição infantojuvenil. “É a primeira vez que terá campeonato nessa categoria”, diz Cris Gurjão, presidente da AQuaRio.

Ela lembra que a etapa classificatória do estadual (adulto e infantojuvenil) começa no sábado, no Arrastão de Cascadura, e termina no dia 19 de julho, no Parque Madureira, Zona Norte do Rio. Na Baixada, o calendário segue até agosto entre as federações locais.

Apesar de as quadrilhas juninas ainda conseguirem se apresentar, o cenário atual não é nada favorável. “Continuar existindo é um ato de resistência”, afirma Carlos Henrique Calazans, 60, presidente da Federação de Arraiás e Quadrilhas Juninas da Baixada Fluminense (Faquabaf).

Segundo ele, nos anos 1970 a Baixada chegou a ter por volta de mil quadrilhas e, atualmente, mal chega a 50. “O pessoal continua com essa tradição por puro amor. É amor e sacrifício a realidade das quadrilhas juninas, hoje em dia. Muitas delas tiram do próprio bolso o dinheiro para se manter”, conta Carlos Henrique.

Célio Esteves, 54, presidente da Federação Independente dos Grupos de Dança de Quadrilhas do Estado do Rio de Janeiro (Figdquerj), vai além: “Enquanto o poder público e as empresas privadas não derem o devido valor às quadrilhas juninas, a situação só vai piorar.”

Origem nos salões de elite da nobreza

A quadrilha tem origem francesa, nas contradanças de salão do Século 17. Em pares, os dançarinos faziam uma sequência coreografada de movimentos alegres. O estilo chegou ao Brasil no Século 19, ainda durante o período colonial, trazido pelos nobres portugueses.

Aos poucos, as quadrilhas deixaram os salões da elite e foram se tornando cada vez mais populares, conquistando todo o Brasil, principalmente o meio rural.

Como junho era a época da colheita do milho, as festas eram fartas de comidas feitas à base desse cereal. Curau, pamonha, canjica, bolo, pipoca são alguns dos pratos típicos que não podem faltar à mesa nas festas juninas.

Apresentações e comidas típicas nordestinas o mês de junho inteiro

Hoje — A quadrilha Araquém se apresenta na Praça Maria da Conceição Cardoso, no bairro Nova Cidade, em Nilópolis, a partir das 18h.

Sexta-feira — A Federação de Arraiás e Quadrilhas Juninas da Baixada Fluminense (Faquabaf) faz a abertura do Arraiá Caxiense, no bairro Laguna Dourada, em Duque de Caxias, a partir das 20h.

Sábado — A Renovação Junina se apresenta na Praça de Mesquita, às 21h.

Sábado — Arraiá é o Fervo, a partir das 22h, na Praça da Bandeira, em São João de Meriti.

Dia 27 — Arraiá do Bico Doce, no Clube Volante, em Nova Iguaçu, a partir das 19h.

Dia 27 — O Arraiá Campos Elísios será em Duque de Caxias, a partir das 22h.

Dia 27 — A quadrilha Corações Unidos Júnior se apresenta na Praça de Guapimirim, a partir das 20h.

Dia 28 — Festa da Liga Independente das Quadrilhas Juninas de Nova Iguaçu (Liquajuni), às 16h, no Morro Agudo Futebol Clube, em Nova Iguaçu.

TRABALHO SOCIAL COM JOVENS CARENTES

Pequeno Pietro%2C de apenas 9 meses%2C já participa dos ensaios da quadrilha com a mãe%2C Dione FormigaEstefan Radovicz / Agência O Dia

Como o esporte — que tem o poder de atrair os jovens e tirá-los das ruas —, os apaixonados pelas festas juninas acreditam que as quadrilhas são também uma forma de afastá-los das más influências. É essa certeza que dá ainda mais força a Ricardo Paulino, da Corações Unidos Júnior, para continuar.

Orgulhoso, conta que já resgatou alguns jovens das mãos do tráfico. “A cabeça vazia e a falta de atividade e também de oportunidade na vida fazem com que a molecada se envolva com o tráfico. Eu mesmo já fui conversar com a família de jovens para que pudessem ir aos ensaios da nossa quadrilha. Com isso, eles foram gostando, ficando e se afastando do tráfico”, diz, orgulhoso.

As mães que frequentam os ensaios dizem que a comunidade deve muito à existência da Corações. “Aqui é uma área carente de tudo: atenção, lazer, cultura. O fato de a Corações existir é uma dádiva para a gente porque ficamos felizes e tranquilas sabendo que nossos filhos estão gastando seu tempo com música, dança e cultura”, diz Elaine Aquino, 36.

Para participar da Corações Unidos Júnior, os jovens precisam ter entre 7 e 17 anos, estudar e ter boas notas na escola, além de bom comportamento em casa e na comunidade.

Wagner Oliveira, 32, da Fogueirão, se apaixonou pelas quadrilhas ainda criança, com 7 anos, e logo se viu envolvido com a rotina de ensaios e dedicação às quadrilhas. “Queria que o poder público visse as quadrilhas juninas com o o valor que merecem. Além de serem nossa cultura, são também uma chance de o morador pobre da Baixada Fluminense se divertir. É uma forma muito saudável de afastar o jovem das ruas”, diz.

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