Por marcelle.bappersi

Rio - Guilherme Fuchs, com o objetivo de preservar a memória de sua família, escreveu ‘Depoimentos e reflexões de um teuto-brasileiro’, em 1988. É um livro de grande importância para a compreensão da vida de um alemão emigrado para o Brasil quando a Alemanha se desestrutura como nação, conforme cláusulas do Tratado de Versalhes, de 7 de maio de 1919. Seus pais chegaram ao Brasil em 1921. Guilherme Fuchs fala pouco de sua família, não cita o nome de sua mãe ou de seu pai, a quem chama de Velho Hauser. Suas crônicas falam de suas relações com o bairro Centenário e com a Vila Merity (hoje Duque de Caxias), além de serem dedicadas ao povo alemão.

Guilherme nasceu em 16 de maio de 1925, em um barraco construído no terreno de 1.500 metros quadrados adquirido por seu pai na Rua Coronel Alberto de Mello, no Centenário. Outros alemães também vieram, como um berlinense chamado Zeisig. Os de Guilherme moravam em apartamento luxuoso em Augsburgo, cidade com teatros, diversões, supermercado e muito conforto. A senhora Hauser teve grandes dificuldades de adaptação. Seu pai era marceneiro e construiu no Rio de Janeiro a primeira escada em caracol, gerando economia para compra do terreno.

A casa onde morou a família Hauser no bairro Centenário Divulgação

A Vila Centenário descrita por Guilherme era muito miserável. A estação da Leopoldina ficava a aproximadamente dois quilômetros de sua casa, mas o caminho era tortuoso e cheio de lama, buracos e valas. Um foco de mosquitos terrível obrigava seus pais a usar estratagemas para evitar malária e outras febres. O jantar era consumido numa cama coberta por mosquiteiro. O rancho, de pau a pique, não tinha portas ou janelas. A cobertura era de sapê, o chão de terra e o fogão, de lenha. Umas das tarefas da noite era tirar os bichos de pé com agulha e luz de lampião.

A senhora Hauser ia uma vez por semana, sempre levando o filho ao colo, à feira da Penha e, às vezes, à da Praça da Bandeira. Em Merity, não havia leite para vender, e a carne, do açougue do Senhor Lucas, ficava pendurada já meio estragada em razão da quantidade de moscas que infestavam o ambiente. Guilherme Fucks estudou em uma escola do bairro e tinha como professora as senhoras Corbélia e Lupércia.

Em 1930, no início de março foi inaugurada a Estrada Rio-Petrópolis, e a senhora Hauser foi à festa e levou Alexandre, dizendo que viu pela primeira e última vez o então presidente Washington Luiz. A nova estrada trouxe progresso nunca visto, mas também trouxe os aventureiros, bandidos e oportunistas. Até aquela data, a casa ficava aberta quando se ia à feira da Penha ou a outro lugar. Com a estrada, moradores foram obrigados a colocar janelas e portas.

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