Por marcelle.abreu

Rio - Uma redoma de miséria e exclusão. Assim vivem os que estão esquecidos e marginalizados. Se muitos fecham os olhos para esta parcela da sociedade, há os que olham por eles e são capazes de se sensibilizar com a situação. São os voluntários de projetos que oferecem ajuda humanitária na Baixada Fluminense.

Aos 58 anos, dona Luzia Cândido vai ver um sonho antigo ser realizado: uma casa de laje. Um sonho agora possível, graças ao Engenheiros Sem Fronteiras (ESF). Com oito netos e apenas um salário mínimo a avó faz o que pode pela família, que vive em Jardim Nova Marília, Magé. A casa encontra-se em estado muito precário e corre risco de cair. Tem enormes rachaduras nas paredes e telhas furadas e dona Luzia não dorme em dias de chuva. “Quando chove eu fico vigiando as crianças a noite toda, tenho medo da casa cair”, disse.

GALERIA: Idosa cuida de oito netos, três deles cadeirantes

“Uma amiga me pediu ajuda para a família da dona Luzia e mostrou uma foto, foi quando o estado da casa me chamou atenção. Fui até lá e constatei: teríamos que fazer uma nova casa pra eles”, contou Maglane Cardinale de Andrade Meira, engenheira e vice-diretora do ESF.

Maior carência em Jardim Gramacho é de água potável.Jhonatan Oliveira/ Divulgação

Depois de anos de dificuldade, sem ter até o que comer, dona Luzia está confiante que dias melhores estão por vir. “Já teve dias que não tinha nada para comer em casa, mas eu nunca perdi a fé. Depois de tanto sofrimento é um sonho saber que terei minha casa, uma sala com sofá para eu me sentar e receber visitas”, emociona-se. Para o futuro dos netos ela quer o melhor. “Quero que eles estudem e tenham tudo que nunca pude ter, quero o melhor”.

O Engenheiros Sem Fronteiras é uma organização internacional que está em mais de 40 países.O objetivo da organização é usar a engenharia para auxiliar em situações de carências na sociedade. No Rio, o núcleo tem apenas um ano, mas já está mudando a vida de muita gente. “Nosso foco é desenvolver projetos junto às comunidades carentes, buscando qualidade de vida. Ajudar pessoas e mudar vidas através da Engenharia é o que fazemos”, ressalta Maglane.

Mudar vidas também é o objetivo do Life Change Project. O projeto leva ajuda para Jardim Gramacho, Duque de Caxias, há dois anos. “Quando fui a Gramacho pela primeira vez fui tomado por um amor, algo mudou em mim, e foi assim que comecei”, conta o idealizador Victor Hoffman,28. Hoje, o projeto possui 30 voluntários e tem uma base na comunidade Quatro Rodas. Todos os domingos eles fazem o trabalho que antes Victor fazia sozinho e além de água e alimentos, eles conversam e aconselham. “Oferecemos amor e esperança”, diz Thais Alana,22, voluntária do projeto.

Desde o fechamento oficial do aterro sanitário,em 2012, a vida de quem continua vivendo no local não melhorou. Sem saneamento básico, moradia e condições dignas de sobrevivência, eles enfrentam dificuldade como a falta de água potável. “A água é uma das maiores carências. Eles usam tonéis que acumulam água da chuva e usam esta água para tudo, até para beber. Por isso nosso foco é doar água e toda semana trazemos carregamentos de água e levamos de casa em casa”, explica o idealizador. “Não queremos fazer caridade, queremos mudar a vida destas pessoas”, concluiu Victor.

Engenheiros preparam o terreno para a casa de dona Luzia em MagéDivulgação

Em fase de preparação para a nova casa

O projeto da casa ainda está no papel, mas o terreno já começou a ser preparado com o apoio do Exército brasileiro que cedeu equipamentos de topografia. A nova casa terá três quartos, sala, cozinha e banheiro, toda adaptada para cadeirantes, já que três dos meninos têm necessidades especiais devido a uma doença genética degenerativa nos músculos. A construção será ecologicamente correta. Os temas dos quartos já foram definidos “Queremos um quarto do homem aranha”, falou Júlio de Souza, 10. Entre as meninas há divergências. “Eu quero rosa”, diz Nicole De Souza, 6. “Eu quero da cor do céu e do mar”, gritou Joana de Souza, 8. Mas entre elas dois itens são unanimidade. “Queremos panelas novas e piso”, pediu a caçula entre as meninas, Isabela de Souza, 7.

Enquanto as obras da nova casa durarem, a família vai ficar em uma casa que a Prefeitura de Magé deve disponibilizar através da inclusão em algum programa social.

Uma proposta para uma nova vida

Com oito filhos, seis meninos e duas meninas, a dona de casa Adriana Moreira, 35, viu sua vida mudar com a ajuda do Life Change Project. “Eles me apoiaram quando ninguém mais queria me ajudar, me ajudaram a cuidar da minha mãe”, contou. A mãe de Adriana é doente e a equipe ajudou a conseguir atendimento médico e até ajudou em alguns cuidados. “ Eles vinham aqui e me ajudam a dar banho nela, sem frescura como se fossem da minha família”.

Life Change Project é uma das ONGs no aterro de Gramacho%2Cem CaxiasJhonatan Oliveira/ Divulgação

Adriana recebe a equipe semanalmente que a ajuda com cesta básica e também com água potável. Ela faz parte do grupo de moradores da região que vive sem saneamento básico e que não tem água potável.
A dona de casa é grata pela ajuda que o projeto já deu a e ela, ma s se emociona mesmo é com o carinho e a atenção que os voluntários têm com ela e com toda sua família. “Eles vêm aqui toda semana e eles olham para gente com amor, como quem se importa. Eles se preocupam em saber se estamos bem e se estamos precisando de alguma coisa e isto ninguém nunca tinha feito por mim antes”, diz a dona de casa.
Para o idealizador do Life Change esta é a marca que o projeto quer deixar. “Mais que suprir necessidade de coisas, queremos mostrar que nos importamos”, enfatiza Victor.

Reportagem de Aline Cavalcante

Você pode gostar