Por marcelle.abreu
Neta de ex-escravos Célia Teixeira da Silva, 85 anos,é professora aposentada e tem dois filhos. Veio de Além Paraíba, em Minas Gerais, em 1937, e foi morar em Portugal Pequeno, na Rua Francisco Torquilho. Uma tia vivia ali desde o século 19 e lhe deu uma casa para morar. Conta que seu pai, desempregado, lutava com muita dificuldade para manter os filhos, Mesmo assim, tinha vontade de encaminhar os filhos à escola.
Principal rua do bairro%2C a Álvaro Proença vai até São MateusDivulgação

Por volta de 1937, Portugal Pequeno só tinha uma escola, no lugar onde depois foi fundado o Clube do União FC. Nesta época a localidade era um vazio e havia poucas casas. Sua mãe a colocou em uma escola pública. A mãe, para ajudar o pai, lavava roupa para fora e ganhava pouco. Na época eram poucas as pessoas na comunidade que sabiam ler. Sua casa era um barraco e tinha uma porta e duas janelas. A casa tinha três cômodos com banheiro do lado de fora.

Quando queria beber água que não era do poço as pessoas iam até a Estação de São Mateus, onde tinha água numa caixa para a locomotiva a vapor. Água do poço era para cozinhar, lavar e outras coisas e para beber ia buscar na estação. Nas casas tinha um filtro antigo de barro. A água era carregada de noite quando vinha do trabalho. Seu pai ia com uma talha de barro na cabeça, certa vez a talha caiu da cabeça de meu pai e ficamos sem água.
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Na escola que estudava a professora vinha de Niterói para ensinar. Ao terminar a terceira série, a mãe a matriculou no colégio Republicano, na Pavuna, que só tinha esta escola. Ela conta que sofria crítica das pessoas da localidade que não gostavam de estudar. Mais tarde foi estudar em Vaz Lobo, ia de trem e pagava 500 reis e de bonde 200 reis. Como não tinha condições de continuar pagando uma escola, uma antiga professora que conhecia sua família, arranjou para ela estudar gratuito em Marechal Hermes com o Professor Heitor Pinto da Silva.
Com 19 anos parou de estudar para trabalhar fora. Depois se casou e recomeçou os estudos no Colégio Meritiense, onde fez o curso Normal.Prestou concurso para a Prefeitura, tornando-se professora da rede, seu grande sonho. Alguns anos depois, com seus recursos, fez o curso de Pedagogia na Faculdade Abeu. Só assim pôde reformar sua casa.
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O grande divertimento no bairro era o futebol. O campo funcionou nas décadas de 1950, 1960 e 1970 e Célia diz que “era tão bom que nos domingos havia muita gente no campo e virava ponto de encontro da rapaziada, fazíamos até roupa nova para ir para o campo”. Havia o Clube e nele fazia-se bailes para todos. Havia concurso de rainha do clube, depois foi tudo acabando.