Por adriano.araujo
Publicado 18/04/2014 23:01 | Atualizado 18/04/2014 23:20

Rio - Aos 20 anos, Jayme Vieira, hoje com 77, deixou Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, porque “nem a cana de açúcar aguentava o calor”. O agricultor foi então para Casimiro de Abreu. Agora, o município que ele escolheu para viver é responsável pela produção de 90 mil caixas de mandioca, gerando uma receita de R$ 3 milhões. A história de Jayme, um microempreendedor rural, reflete a de muitos outros que se adaptam às dificuldades em busca de alternativas para o sucesso. Por ano, sua renda chega a R$ 20 mil. E boa parte dela vem do fornecimento de alimentos para a merenda escolar do município.

Jayme Vieira%2C de 77 anos%2C hoje fatura mais de R%24 20 mil por ano%2C graças ao apoio da Prefeitura de CasimiroDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Foi por apoiar pequenos empreendedores como Jayme Vieira que o prefeito de Casimiro de Abreu, Antônio Marcos de Lemos Machado (PSC), venceu, na categoria ‘Pequenos Negócios no Campo’, o Prêmio Prefeito Empreendedor, entregue esta semana pelo Sebrae/RJ a gestores de oito municípios do estado, em cerimônia no Palácio Guanabara.

“Estávamos enfrentando uma onda de produtores que vendiam suas propriedades e iam para a cidade, desacreditados, sem estímulo. Então, investimos em obras e qualificação, passamos a atendê-los de diversas formas”, diz.

Em 2013, o Estado do Rio contabilizou 438.478 microempreendedores individuais. Dos oito finalistas do prêmio, apenas um não era do interior. Dados indicam que a força dos pequenos negócios está alavancando a economia de boa parte dos municípios fluminenses. Em Três Rios, cujo prefeito Vinicius Farah (PMDB) levou o primeiro lugar na premiação, a Junta Comercial registrou 9.600 gerados nos últimos cinco anos. Desde 2003, o PIB (conjunto de riquezas produzidas) da região aumentou 635%. “Em 2014, a previsão é que a receita orçamentária fique em torno de R$ 320 milhões, mesmo sem recebermos os royalties do petróleo”, lembra Farah.

Em Casimiro, o governo municipal oferece aos 385 produtores rurais o auxílio de seis tratores e duas retroescavadeiras para os trabalhos na lavoura, além de insumos, assistência técnica e apoio na comercialização. Um mercado do produtor será aberto em maio. Administrações regionais foram criadas para facilitar as relações entre os agricultores. Os gerentes dessas regionais são os próprios moradores do campo, que fazem a interlocução com a prefeitura.

“Meu papel é levar as demandas do meu povo para o prefeito e ver o que pode ser feito”, conta Maurício Silva, 34 anos, responsável pela comunidade Ribeirão. Além disso, os agricultores se revezam no caminhão-baú oferecido pela prefeitura. O veículo, com capacidade para transportar oito toneladas de alimento, leva as mercadorias para o Ceasa de Colubandê, em São Gonçalo. “É bom porque não perdemos dinheiro para o atravessador. Chego a lucrar R$ 8 por caixa de aipim vendido no Ceasa”, conta a pequena produtora Glória Ribeiro, de 58 anos.

Produtor e administrador regional%2C Maurício da Silva%2C 34%2C leva as demandas da comunidade para o municípioDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Em três dias é possível legalizar negócio em Três Rios

Mais de 1.500 pessoas procuraram o Sebrae em Três Rios para abrir um negócio ou pedir orientações em 2013. O número deve aumentar ainda mais este ano com a inauguração da Casa do Empreendedor, que concentra todos os órgãos necessários para quem quer montar uma empresa, da avaliação de risco à liberação do alvará. Com isso, em três dias é possível abrir um negócio, contra até dois meses de prazo para vencer a burocracia da legalização em outros municípios.

Para Izabel Porto Lima, de 45 anos, era a oportunidade que faltava. Por 15 anos ela transportou cargas e passageiros mesmo sem a documentação e o preparo necessários. “Eu vivia de bicos, sem dinheiro fixo. Procurei legalizar meu negócio. Vendi a Topic velha, juntei dinheiro e comprei uma van nova, com todos os equipamentos de segurança que pediram. Agora sobra trabalho. Só o transporte escolar e o de turismo já me deixam bastante ocupada. Quanto mais legalizado é o meu negócio, mais trabalho eu tenho. Chega de bicos”, orgulha-se.

Izabel%2C Valéria e Igor são exemplos de empreendedores que deram certo em Três Rios%2C no Centro-SulDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Já implementada na cidade, a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa também turbina os negócios locais. Com ela, pequenos têm acesso a licitações, o que faz com que a prefeitura se torne cliente desses empreendedores. Além disso, o município dá prazo de 15 a 25 dias para pagar pelos serviços e produtos, o que dá fôlego e segurança a muitas empresas que têm no poder público um de seus principais clientes.

As oportunidades também atraíram trirrienses que haviam migrado para a capital em busca de emprego melhor. É o caso da atriz e dançarina Valéria Bastos, 38, que abriu uma academia de dança em Três Rios após quase dez anos fora. Já Igor Machado, 25, não pensa em deixar a cidade. “Forneço estrutura para tendas de pequenos e grandes eventos que acontecem aqui, de feiras a exposições agropecuárias.”

Metalúrgico agora virou patrão

Os alquimistas utilizaram Matemática, Química, Física e até magia na tentativa de transformar metal em ouro. Não conseguiram. Com Ensino Fundamental incompleto, Sebastião Rufino fez do metal o alicerce para multiplicar seu patrimônio e ter mais qualidade de vida. A fórmula, no entanto, está longe de ser misteriosa. O metalúrgico de 53 anos, que trabalha desde os 12 no ramo, passou a não depender mais de serviços esporádicos para sobreviver.

Depois da abertura de um negócio próprio, além de soldar e serrar, Tião, como é conhecido, passou a manusear a calculadora para controlar o fluxo de caixa. Se antes a conta era para administrar despesas com necessidades básicas, agora os números cresceram. “Eu reinvisto boa parte dos lucros na empresa. Quero ampliar. Vou pedir orientação do Sebrae para fazer um financiamento de R$ 150 mil e comprar um terreno de 2 mil metros quadrados”, afirma ele, que em três anos aumentou a renda mensal em 60% após virar empresário. A Rufino Metalurgia emprega atualmente 15 funcionários.

Acostumado a soldar e serrar%2C Tião%2C com apenas o Ensino Fundamental%2C hoje controla o fluxo de caixaDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Secretária de Gestão Pública de Três Rios, Fernanda Curdi acredita que a Casa do Empreendedor beneficia os micronegócios. “Aqui concentramos as demandas e, por isso, sabemos quais os setores mais viáveis para abertura de uma empresa. Às vezes a prefeitura tinha dificuldade em contratar uma companhia para fornecer material para reformar uma escola, por se tratar de uma demanda pequena. Para Tião, esse trabalho pode cair como uma luva.”

Itatiaia: grandes ajudam pequenos

Itatiaia é conhecida por quem gosta de aproveitar suas belezas naturais e o friozinho que pode chegar a 5 graus celsius no inverno. Mas a economia do município, antes bastante dependente do turismo, começa a encorpar. Nos últimos cinco anos, três mil pessoas foram empregadas, e a arrecadação de ICMS triplicou, chegando a R$ 56 milhões. O incentivo fiscal para que grandes empresas se estabeleçam na cidade do Sul Fluminense tem impactado os pequenos negócios e levaram Luis Carlos Ypê (PP) a conquistar a segunda colocação do Prêmio Prefeito Empreendedor com o projeto ‘Cidade do Futuro’.

“Nós trouxemos a primeira fábrica da Hyundai fora da Ásia, a IBR-LAM, a Michelin e a Log. Temos ainda a Jaguar Land Rover, que começa a construir a fábrica este ano. A empregabilidade saltou 180%. Vale ressaltar que pequenos negócios como o setor hoteleiro, alimentício e de comércio são muito beneficiados”, destaca o prefeito. “Temos 540 microempresas, 68 empresas de pequeno porte e 898 empreendedores individuais atualmente. A previsão é dobrar o número de empreendedores em 2014”, afirma Denilson Sampaio, secretário de Desenvolvimento Econômico de Itatiaia.

Vinicius Farah%3A eleito pela segunda vez prefeito empreendedor do estadoDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

O Sebrae/RJ, que incentiva as pequenas empresas e promove o prêmio, comemora. “Temos visto que o estado está num momento de excelentes gestões espalhadas por todas as regiões. Houve vencedores no Noroeste, Região Serrana, Sul Fluminense, Centro-Sul e Médio-Paraíba. Isso mostra uma safra boa de gestores que dá atenção ao desenvolvimento da pequena empresa”, avalia Cezar Vasquez, diretor-superintendente do Sebrae/RJ.

Prefeito viveu agruras de empresário

Empresário dos setores de alimentação e vestuário, Vinicius Farah (PMDB), de 48 anos, viveu na pele as agruras por que passa um pequeno empreendedor no Brasil. Filho de funcionário público, ex-jogador de futebol, em 1988 abriu seu próprio negócio e forneceu artigos esportivos para órgãos públicos. “Vivia altos e baixos. Quando não recebia, quebrava. Já tive que vender tudo para pagar os compromissos”, conta o prefeito. 

Foi sua experiência que o motivou a desenvolver um ‘pacote do bem’ para as pequenas empresas de Três Rios. Além de garantir prazos para os fornecedores da prefeitura, criou um fundo de aval, aprovado na Câmara, que financia empreendedores com nomes negativados, em que o próprio poder público é avalista.

Na vida pública desde 1988, Farah foi vereador e secretário de Esportes. Reelegeu-se prefeito com 83,69% dos votos, maior percentual do estado e segundo maior do país. “Sou primeiro empresário e estou homem público”, diz ele, que recebeu pela segunda vez a premiação máxima do Sebrae/RJ. Em 2012, foi eleito o mais empreendedor do país.

?Reportagem: Paulo Cappelli

Colaboração: Rosayne Macedo

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