Rio - Conhecida por abrigar o maior polo de moda íntima do país, com cerca de mil indústrias, Nova Friburgo pretende ampliar ainda mais o número de fábricas. A ressaca da enchente de 2011, que deixou centenas de mortos e gerou dívidas para empresários da região, parece finalmente dar lugar a uma maré propícia para bons negócios.
Localizado às margens da estrada que liga a cidade a Teresópolis (RJ-130), o distrito de Campo do Coelho, a 12 quilômetros da região central de Friburgo, apresenta-se como o futuro ancoradouro econômico do município, que acaba de completar 195 anos. Já são mais de 60 empresas interessadas em se estabelecer na área de 160 mil metros quadrados, que será loteada pela prefeitura no segundo semestre deste ano.
Segundo levantamento da Firjan, as companhias instaladas no condomínio industrial empregarão mais de mil funcionários. “A maioria das companhias pertence aos segmentos de indústria têxtil e metal-mecânica. A arrecadação do município ano passado foi R$ 34 milhões superior à de 2012, um aumento de 14%, o que comprova a recuperação de Friburgo”, diz o prefeito Rogério Cabral (PSD).
Presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Nova Friburgo, Braulio Rezende acredita que 2014 é o ano da afirmação para a cidade. “Depois de um péssimo 2012 para o comércio e uma melhora no ano passado, mesmo com as manifestações de junho, que refrearam a movimentação, agora sim podemos dizer que retomamos o crescimento. Nós estamos entre os três maiores parques industriais do interior do estado, e o aumento dessa produção alavanca todo o comércio”, avalia.
Companhia que produz acessórios de plástico e metal para lingerie, a Fermoplast foi uma das mais afetadas em 2011. Situada em Córrego Dantas, ponto crítico das chuvas, a fábrica teve 80% de seus 3 mil metros quadrados destruídos. “Perdemos toda a linha de produção. Só sobraram as salas do escritório. Mas as condições de empréstimo foram boas e conseguimos reverter a situação. Hoje, estamos com uma área até maior do que na época das chuvas. Nossa fábrica tem atualmente 5.800 metros quadrados”, diz a diretora comercial Giselle Vieira.
Um dos símbolos do turismo na cidade, parado desde 2011, o teleférico será reativado nos próximos meses. Dono do empreendimento, Rodolfo Macri diz já ter amargado prejuízos de R$ 6 milhões por conta da interdição, que afetou também o hotel, o restaurante e o boliche que ficam no morro ao qual o teleférico dá acesso. O empresário já enviou à prefeitura o laudo do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) avalizando a reinauguração. “Falta apenas o retorno do laudo enviado para o Corpo de Bombeiros, que deve me dar uma resposta nos próximos dias”, diz, otimista.
Supermercado hoje emprega mais
A taxa de inadimplência nos empréstimos concedidos pelo BNDES a empresários afetados pela tragédia estourou nos três primeiros meses de 2012, início do pagamento das prestações. As vendas tiveram queda de 9,65% em junho daquele ano, e o cenário parecia nada animador. José Luiz da Paixão, que financiou R$ 2 milhões para reconstruir o Supermercado Tio Dongo, lembra que foi difícil levantar a cabeça depois de ver o estoque submerso.
“A água atingiu dois metros de altura. Perdi quase tudo e fechei as portas por 58 dias. Como o BNDES deu prazo de um ano para começar a pagar as 36 parcelas, consegui montar o mercado e gerar fluxo de caixa para não atrasar as prestações.” Hoje, o quadro de funcionários do Tio Dongo, que era de 70, passou para 100 trabalhadores com carteira assinada. “Estou ampliando uma segunda unidade e pretendo contratar mais gente”, comemora.
Há duas semanas, foi aprovada no Senado a MP 631/2013 que prorroga por mais 24 meses o prazo para a quitação da dívida junto ao BNDES. Cabe agora à presidenta Dilma Rousseff a sanção ou o veto. “Aprovada, a MP dará fôlego a empresários que ainda estão em dificuldades. Torcemos muito para que isso aconteça”, diz Cláudio Tângari, presidente do SindMetal de Nova Friburgo.
Museu do Mel recupera movimento e atrai visitantes de todo o estado
Próximo ao local onde será construído o novo distrito industrial, em Campo do Coelho, é possível ver colmeias dispostas simetricamente à beira da estrada e dezenas de pessoas com roupa de apicultor. Mas o Museu do Mel, que recebe turistas, escolas e faculdades de todo o estado, passou por um período amargo em 2011. Somente agora o apiário Amigos da Terra — que, além da produção de mel e derivados, ensina a criar abelhas africanizadas — começa a recuperar o movimento de antes.
“Na época das chuvas, mais de 70 instituições de ensino que estavam pré-agendadas conosco cancelaram a vinda. Apesar de a nossa estrutura não ter sido abalada, o impacto no número de visitantes afetou bastante a gente”, conta o médico-veterinário Luis Moraes, de 56 anos, fundador do apiário, que existe há mais de 20. Já em 2014, devem passar pelo Amigos da Terra cerca de 3 mil alunos de escolas e faculdades de diferentes regiões do estado. São 10 instituições de ensino por mês, a maioria do Rio, Itaboraí e Macaé. O passeio sai a R$ 15 por pessoa.
“Acredito que o surgimento do distrito industrial pode alavancar o turismo, mas só se os investimentos no setor forem proporcionais ao que é investido na indústria. Acho que Nova Friburgo tem bem mais potencial turístico do que o que é explorado atualmente”, completa Moraes.
Turismo já cresce, em média, 4% ao ano
“O turismo (que sofreu queda de 15% em 2011) está voltando. Antes, qualquer chuva esvaziava a cidade. Agora os turistas estão perdendo o medo de vir para cá. Estamos recuperando a confiança”, acredita Fabiana Lucas, 47, dona da loja de bolsas Couthe, no Centro, que vê o fluxo de caixa voltar a ser o mesmo de antes.
“Estamos com crescimento médio de 4% ao ano no turismo. Tivemos uma taxa de ocupação de 70% no feriado do Dia do Trabalho. Um número ótimo, tendo em vista que foi depois do feriadão da Semana Santa. Nossa equipe está indo a cidades do estado para fazer prospecção. Estivemos no Pão de Açúcar, no Rio, neste mês e vamos procurar outras cidades”, afirma o secretário de Turismo, Nauro Grehls.
Dono de um hotel em Friburgo, Grehls também sofreu na pele os efeitos colaterais pós-enchente. Atualmente, a principal dificuldade é atrair eventos corporativos. Para contornar a questão, a prefeitura quer inaugurar um centro de convenções em 2016. “Esperamos atrair conferências e eventos decorrentes do Comperj, que fica a uma hora de Friburgo, de carro”, diz.
De 2011 a 2014 os governos federal, estadual e municipal gastaram R$ 1,4 bilhão em obras de recuperação e prevenção de enchentes e deslizamentos em Nova Friburgo. Recentemente, o estado anunciou R$ 6,1 milhões na urbanização de quatro pontos turísticos: três praças no distrito de Lumiar e outra no de São Pedro da Serra. A cidade também ganhará um dos três centros culturais e de exposições que o Prodetur vai financiar no estado. Serão R$ 10,8 milhões no espaço, que concentrará feiras e exposições agropecuárias, de floricultura e de moda íntima.
Cofres podem ter rombo de R$ 11 milhões
O avanço de Nova Friburgo pode ser comprometido por uma dívida com o FGTS de R$ 10, 7 milhões, acumulados entre 2001 e 2010. Segundo o prefeito Rogério Cabral, no cargo desde janeiro de 2013, o montante cobrado judicialmente equivale a 75% do orçamento vinculado a investimentos no município.
“A Procuradoria tem estudado as medidas legais que podemos tomar. Mas, se o judiciário entender que temos mesmo de pagar, não teremos outra opção a não ser apertar o cinto”, disse. Rogério Cabral lembrou ainda que, ao assumir a prefeitura, já herdara uma dívida de cerca de R$ 80 milhões.