Por bferreira

Rio - Em meados do século 18, boa parte da produção de café que abastecia o país saía das cidades do Médio Paraíba, com destaque para Vassouras, Barra do Piraí, Valença e Rio das Flores. As grandes lavouras, que fizeram a fortuna dos barões do café, entraram em decadência com o fim da escravidão, associado a técnicas tradicionais de produção agrícola, ao ataque de pragas e a desmatamentos. Hoje, quem visita a região turística do Vale do Café, com suas belas fazendas e natureza exuberante, se surpreende por não encontrar mais um pé sequer do grão para contar história.

Retomada%3A Fazenda em Barra do Piraí%2C que abre as portas a turistas há 17 anos%2C é uma das interessadasDivulgação

Esta constatação, no entanto, está com os dias contados. Um projeto pretende resgatar a cultura cafeeira na região, porém, com um novo conceito, sem escala comercial. A “semente” está sendo plantada pelo Sebrae junto aos novos “barões” da região: os donos das fazendas que abrem as portas de suas propriedades para o turismo rural, histórico, cultural e pedagógico.

“O projeto de reintrodução do plantio de café tem foco mais artesanal, diferenciado, para cultivo em pequenas áreas. Todo o processo é feito na própria fazenda, do cultivo à torrefação, e a comercialização é feita direta ao turista e visitante, sem nenhum intermediário”, afirma o superintendente do Sebrae-RJ, Cezar Vasquez.
Segundo ele, a produção de café que restou em algumas fazendas hoje é residual, apenas para consumo próprio. Um estudo de viabilidade técnica já foi encomendado à Universidade de Lavras (MG). “O processo é lento. Primeiro é preciso identificar quais variedades são mais adequadas. Depois será necessário acompanhamento, aprimoramento”.

O projeto faz parte das ações desenvolvidas pelo Sebrae no Festival Vale do Café, que incluem capacitação de restaurantes, hoteis, fazendas e pesquisa junto ao público participante do evento de música, realizado há 12 anos. “Nas últimas três edições, trouxemos produtores de grãos especiais de diversas regiões do país, para apresentar e vender seu produto. O objetivo também é estimular os proprietários da região”, conta Vasquez.

No Estado do Rio, já existe uma produção importante de cafés especiais na Região Noroeste. No Vale do Café o projeto trará um novo ingrediente: o “valor agregado” da rica história da região.

São João da Prosperidade já aderiu

Uma das fazendas interessadas em participar do projeto é a São João da Prosperidade, em Barra do Piraí, fundada em 1820 e que já recebe visitantes há 17 anos. “Hoje, o turista não consegue entender por que uma fazenda de café não tem café”, conta Magid Breves Muniz, 70 anos, que há sete se veste de sinhá para receber o público com uma bem humorada aula de história.

Entusiasmada com o que viu nos cafezais de Itu (SP), em viagem técnica promovida pelo Sebrae-RJ com proprietários rurais da região, Magid já tem o modelo de seu projeto. “Queremos fazer do cafezal o cafezinho. A ideia é fazer uma pequena plantação, em área de fácil acesso, próximo da casa grande, para atender ao turista da terceira idade, nosso principal público”, conta Magid.

Além do turismo, principal atividade hoje, a propriedade possui gado de corte, produção de eucaliptos e de linguiça — são 10 mil quilos por mês. Um pequeno alambique e uma lojinha de artesanato completam as atividades. O trabalho é dividido com os filhos Augusto, 44, e Flávio, 39. “Cada um no seu quadrado”, brinca Magid, que emprega 17 pessoas, fora os freelancers contratados nos fins de semana, quando chega a receber 100 pessoas.

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