Por thiago.antunes

Rio - Depois de ver a casa de seus familiares ser invadida pelas águas, o cabeleireiro Marcos Antônio de Oliveira hoje respira aliviado. “Após tudo o que passamos, é emocionante ver a melhoria na região”, diz o morador de Xerém. Destruído pelas fortes chuvas de janeiro do ano passado, o quarto distrito de Duque de Caxias, conhecido como a terra de Zeca Pagodinho, se reergue junto com seus quase 22 mil habitantes. A prefeitura investiu R$ 9 milhões para trazer de volta a dignidade dos moradores, levada junto com a enchente. Obras de reestruturação podem ser vistas por quem passa pelas ruas, praças e margens do Rio João Pinto.

“Foi um momento difícil. Achei que minha mãe tinha morrido. Fomos atendidos pela prefeitura, minha mãe conseguiu o aluguel social e estamos reconstruindo nossa vida. Ficamos sem casa e perdemos tudo. Hoje, está tudo mudado. Eu vi a transformação com as obras. Temos uma nova Xerém”, conta Marcos Antônio.

Totalmente recuperada%2C ponte sobre o Rio João Pinto hoje é cercada por área de lazer. O novo cenário emociona o cabeleireiro Marcos Antônio%2C que perdeu a casa na enchenteDivulgação

Além da nova Ponte do Café Torrado, que havia sido destruída, o maior conjunto de obras já realizadas no distrito inclui duas passarelas nas localidades de Café Torrado e Cristóvão, 13 ruas asfaltadas, manta para evitar deslizamento de encosta e uma praça com quadra poliesportiva, academia da terceira idade, quiosque, coreto e playground. Uma terceira passarela já foi licitada, e vai atender à localidade da Pedreira.

“Junto ao governo federal conseguimos recursos para reconstruir o distrito que teve o maior acidente ambiental da sua história. Queremos agora que a população ajude a manter tudo em perfeito funcionamento”, afirma o prefeito Alexandre Cardoso (sem partido). Ele anunciou que o distrito também ganhará em breve uma unidade do Programa Saúde da Família (PSF) e um Destacamento de Policiamento Ostensivo (DPO).

Mais segurança%3A a aposentada Gisela estreou a nova passarela de Café Torrado ao lado do prefeito Alexandre CardosoDivulgação

A aposentada Gisela de Lucena foi a primeira moradora a atravessar a nova passarela do Café Torrado, ao lado do prefeito. “É a realização de um sonho. Com a ponte, poderei passar o dia na casa da minha filha. E minha neta voltará para casa em segurança”, contou. O pedreiro Derli de Souza também aprovou a nova passarela em Cristóvão. “Tem 48 anos que vivo aqui e pela primeira vez vejo uma obra como esta. Ganhamos uma passarela segura, diferente daquela pinguela que existia”, disse.

O aposentado Eugênio Mariano de Souza, 58, que sempre passa pela ponte, ainda lembra da tragédia. “Moro há 18 anos em Xerém e nunca vi uma enchente daquela. Minha casa, que fica na Rua São Geraldo, foi uma das poucas que a água não invadiu. Mas fiquei ilhado com meus filhos durante duas semanas. Não conseguíamos ir para a rua. Ainda bem que Xerém se recuperou e está ficando super bonita”, destacou.

Município tem projeto para atrair polo gastronômico e pousadas para a região

Localizada no pé da Serra dos Órgãos, Xerém ainda é pouco explorada quando o assunto é turismo, principalmente o ecológico. A reserva florestal também é outro ponto a ser explorado, já que possui fauna e flora peculiares. A área de preservação de Mata Atlântica abriga árvores como o cedro, canela, ipê e jequitibá. Por causa dessa diversidade natural, o prefeito Alexandre Cardoso acredita que o distrito pode se tornar, em um futuro próximo, um atrativo para visitantes de outras regiões.

O pedreiro Derli também aprovou a passarela em CristóvãoDivulgação

A ideia de Cardoso é aproveitar as potencialidades turísticas para atrair novos emprendimentos para o local nas áreas de gastronomia e hotelaria. “Levei ao governo federal a proposta para a construção de uma estrada que vai de Xerém a Miguel Pereira. Essa ligação vai estreitar a distância entre as regiões e facilitar o pólo gastronômico que estamos pensando em trazer para cá. Estamos incentivando a vinda de hotéis e pousadas para o distrito e queremos que os restaurantes melhorem seus serviços e se modernizem”, argumentou.

Dona de um bar em frente à Praça dos Aposentados, que ganhou novos bancos, mesas de concreto e iluminação, Mara Rúbia Fernandes, 38, aprovou a transformação. “Aqui não tinha nada. Era um lamaçal só”, diz ela, que perdeu móveis e mercadorias após a água da chuva invadir seu bar e sua casa.

‘Lixo nas ruas, nunca mais’, diz prefeito

Na madrugada de três de janeiro de 2013, uma forte chuva caiu sobre Xerém e trouxe caos ao local. O temporal mais intenso dos últimos 50 anos no distrito atingiu 212 milímetros em 24 horas. Uma pessoa morreu, mais de mil ficaram desalojadas, 45 casas foram inundadas e outras 200 sofreram com os estragos. Além disso, três pontes ficaram destruídas e muitas famílias tiveram que deixar seus lares.

Mara espera atrair mais clientes ao seu bar%2C na Praça dos AposentadosDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Na época, vários pontos de alagamentos se formaram e centenas de moradores ficaram ilhados. Alguns deixaram as casas com água na cintura, levando os pertences nas costas. Diversos veículos foram arrastados. A forte enxurrada ocasionou uma grande avalanche de terra, árvores, pedras, atingindo as casas na beira do Rio João Pinto, que corta o distrito.

Na ocasião, diversos especialistas disseram que os problemas poderiam ser amenizados se não houvesse tanto lixo espalhado por Xerém. A coleta era deficiente e havia 50 mil toneladas de detritos abandonados nas vias. O prefeito diz que agora conta com a cooperação da população para não jogar lixo nas ruas. “A reconstrução do local é o mínimo que pudemos fazer para os moradores que tiveram esse sofrimento. Vamos conservar e cuidar de Xerém. Lixo nas ruas nunca mais”, destacou Cardoso.

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