MPF: usina em Campos foi usada para incinerar corpos

Acareação entre funcionário e ex-delegado acusado de mortes aumenta suspeitas

Por O Dia

Rio - Mais um capítulo que pode ajudar a reescrever a ação de torturadores durante o regime militar no interior do estado. O Ministério Público Federal (MPF) investiga o possível uso de uma usina de cana-de-açúcar em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, para incineração de corpos de vítimas de torturas. Como parte do trabalho, ontem foi realizada uma acareação entre envolvidos diretamente em episódios ocorridos no período da ditadura no local.

De acordo com o MPF, a acareação ajudará a instruir o procedimento investigatório criminal instaurado para apurar fatos relativos à eventual violação de direitos humanos e incineração de corpos.Participaram da ação o ex-delegado da Polícia Civil e do Departamento de Ordem e Política Social (Dops), Cláudio Guerra, e o ex-funcionário da Usina Cambaíba, Erval Gomes da Silva.

Segundo o MPF, entre os depoimentos de Cláudio Guerra e Erval Gomes houve muitas contradições que precisavam ser melhor apuradas, já que Erval nega que tenha participado de qualquer tipo de atividade de queima de corpos na usina, enquanto Cláudio Guerra diz o contrário.

Em agosto deste ano, Guerra participou de uma reconstituição na usina, onde contou como os corpos eram queimados nos fornos. Em seu depoimento, o ex-delegado relatou que participou da queima de pelo menos 12 corpos trazidos da Casa da Morte, situada em Petrópolis, na Região Serrana. Para a reconstituição dos fatos, foram usados manequins.

“Os corpos chegavam em sacos plásticos pretos amarrados com cordas. Ninguém desconfiava que estávamos queimando pessoas. O movimento era disfarçado porque sempre haviam funcionários alimentando os fornos com lenha. O odor forte do vinhoto mascarava o cheiro”, explicou Guerra.

“Cláudio Guerra, apesar de colaborar, é um assassino frio e confesso. Foi braço do regime militar e merece pagar à justiça por suas atrocidades. A reconstituição mostrou que a queima era possível. Vamos prosseguir nas investigações”, destacou o procurador da República, Eduardo Santos de Oliveira.

As investigações sobre a incineração de corpos na usina foram abertas em maio de 2012. Na época, foi instaurado procedimento investigatório criminal para apurar declarações do ex-delegado no livro “Memórias de uma guerra suja”.

Ex-delegado confessa torturas e mortes na ditadura

Personagem central do livro “Memórias de Uma Guerra Suja”, Claúdio Guerra confirmo em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em Brasília, no mês de julho, que militantes políticos contrários ao regime militar foram mortos em Petrópolis e tiveram seus corpos queimados na Usina Cambaíba, em Campos.

Hoje atuando como pastor evangélico, Guerra reconheceu as imagens de 19 vítimas da ditadura, sendo que 13 foram carregadas por ele para incineração na Cambaíba, e confessou ainda ter sido o autor do assassinato de um deles. O ex-delegado também afirmou ter matado outras cinco ou seis pessoas.

A filha do proprietário da Usina Cambaíba, Maria Cecília Ribeiro Gomes, discordou da declaração de Cláudio Guerra. Ela disse que a família desconhece qualquer envolvimento do proprietário, já falecido, com a ditadura. Informou que a usina funcionava 24 horas e que seria impossível que pessoas tivessem sido mortas ali sem que alguém percebesse.

Guerra ainda declarou que o coronel Freddie Perdigão Pereira, morto em 1998, que atuou no Doi-Codi de São Paulo e na Casa da Morte de Petrópolis e coordenou o atentado do Riocentro, provocou o acidente que resultou na morte da estilista Zuzu Angel, em abril de 1976.

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