Moradores de bairro de São Gonçalo dizem estar sem água há mais de 20 anos

Moradores do bairro Boa Vista afirmam não saber o que é água encanada há duas décadas

Por O Dia

Rio - O que pode parecer impossível, já acontece há mais de 20 anos em São Gonçalo. Moradores do “outro lado da ponte” — a Travessa Frederico Marques, que corta a BR-101, no bairro Boa Vista, afirmam não saber o que é água encanada há duas décadas, apesar de ser vizinhos de um reservatório de abastecimento da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) e do Piscinão de São Gonçalo. Em entrevista ao DIA, antigos residentes do local expressaram sua angústia e decepção pela falta de um direito básico. Para a Cedae, o problema é causado pelo crescimento descontrolado do bairro nos últimos anos, com muitos loteamentos irregulares, e deve ser resolvido nos próximos seis meses, com a instalação da rede que atenderá todos os moradores da região.

O motorista Severino Celestino, de 57 anos, que vive no local há 22, disse que ali conta com todo o tipo de serviço, menos água. “Aqui temos de tudo: lixeiro, carteiro e até esgoto, mas água encanada, nunca. Eu não ganho bem para gastar R$ 300 em caminhão-pipa por mês. Se tivesse um hidrômetro aqui, na porta de casa, com certeza eu não iria usar tanto assim”, disse. “Pago um IPTU caríssimo e fica por isso mesmo. O problema é só desse lado do bairro. Do outro lado da ponte é tudo normal”, lamentou.

Rita guarda diversos galões de água vaziosDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Segundo a cozinheira Rita de Cássia, 48, que mora no bairro há 20 anos, seu lado foi esquecido pelo poder público. “Mesmo com os inúmeros abaixo-assinados que a população faz, nada muda. Vários políticos já vieram aqui prometeram, prometeram, e nada aconteceu. Um deles chegou até a dizer que no dia seguinte já iria marcar a rua para iniciar as obras. Isso já faz 10 anos.”

Ela diz ainda que chega a gastar R$270 no verão somente em um caminhão-pipa. “Com só uma pipa por mês não dá, são só 9 mil litros. Quando que isso vai mudar? A gente não aguenta mais. Prefiro pagar como minhas amigas, que moram do outro lado da ponte e gastam 50 a 60 reais por mês, com conforto. Aqui eu pago 150 em um caminhão- pipa com privação. O que eu gasto de água seria um lazer para a minha família”. Rita diz que já perdeu a esperança: “Não tenho expectativa nenhuma de termos água encanada. Na verdade, eu acho que isso nunca vai acontecer. Até gosto muito daqui, mas com esse problema é muito difícil.”

Segundo eles, o “lado esquecido” só passou a ter luz graças à chegada do Piscinão, em 2004, que trouxe alguns benefícios e também alguns problemas, como a insegurança. Porém, para eles, a questão da água ainda é unânime e necessita ser resolvida “para ontem”.

Procurada, a Prefeitura de São Gonçalo informou que tem cobrado à Cedae melhorias no sistema de abastecimento do município, que é muito precário.

Obras prontas em seis meses

?A Cedae informou que as obras no bairro Boa Vista prevêem instalação de rede e escavação do solo para realizar a ligação da região à rede da companhia. A partir daí os imóveis serão abastecidos. A empresa adiantou ainda que está finalizando investimentos de R$ 600 milhões para aumentar a oferta de água em São Gonçalo.

Já foram reconstruídos os reservatórios de Marques Maneta e Colubandê e inauguradas obras de melhoria e ampliação da estação de Imunana-Laranjal. A duplicação da adutora que abastece a cidade está na fase final, mas já gera aumento de 45% na oferta de água. Com a finalização da obra, até julho de 2015, o aumento chegará a 60%, saindo de 4,8 litros por segundo para 7 mil l/s. A ETE São Gonçalo será inaugurada até o fim do ano e a ETE Alcântara, em 2016.

Reportagem: Vinícius Amparo

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