Porto de Itaguaí ameaça botos

ONG diz que ampliação de terminal da CSN coloca em risco espécie na Baía de Sepetiba

Por O Dia

Rio - Símbolo da bandeira do Estado do Rio, os botos-cinza podem estar com os dias contados na Baía de Sepetiba, local que concentra a maior incidência da espécie na América Latina. De acordo com ambientalistas, o projeto de expansão do Porto de Itaguaí, que está em fase de licenciamento ambiental e pode gerar 1.200 empregos na cidade, representa um risco a mais à sobrevivência do animal, que está na lista dos dez mais ameaçados do estado. A ampliação do terminal de granéis sólidos (Tecar) da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) no porto, segundo o Instituto Boto Cinza (IBC), afetaria o ecossistema e colocaria em risco os cerca de mil botos que vivem ali por conta da presença maior de navios e de metais pesados causados pela dragagem.

“Vários estudos para os empreendimentos portuários que foram licenciados na Baía de Sepetiba negligenciaram o impacto indireto da dragagem e qualquer outra atividade no ambiente marinho. Somente em 2014 foram recolhidos 70 botos, aproximadamente 8% da população, e não sabemos como ficará a mortalidade nos próximos anos em que se preveem mais empreendimentos para a Baía de Sepetiba”, alerta a bióloga do IBC, Kátia Silva.

Na Baía de Sepetiba%2C vivem cerca de 1 mil botos-azuis%2C uma das dez espécies ameaçadas de extinção no RioDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Segundo ela, estudos que o IBC comprovam a contaminação por metais pesados nos botos-cinza na região. “O material a ser dragado tem níveis altíssimos de cádmio e zinco excedendo o permitido”, disse. Ainda segundo Kátia, todo empreendimento causa impacto no local, tanto para a biodiversidade quanto as comunidades locais.

A CSN planeja ampliar a capacidade de movimentação de minério de ferro de 57 milhões de toneladas por ano para 70 milhões. Para isso, vai reformar a infraestrutura já existente e ampliar o píer em 160 metros para permitir a atracação de navios de maior porte e, assim, escoar a produção prevista. O projeto está sendo avaliado pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Na semana passada, houve uma audiência pública para discutir o projeto de Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (Eia/Rima).

O Ministério Público do Estado acompanha o processo e pode intervir. “O estudo preliminar apresentado constatou algumas inconsistências. Agora, estamos esperando um mais completo para o Inea se manifestar. Se não houver mudança e o projeto for aprovado, o MP vai entrar com um pedido de anulação”, afirmou a promotora Janaina Silva Rettich. Segundo ela, a obra pode causar impacto na fauna marinha e na comunidade em torno do local já que o tráfego ferroviário aumentará em torno de 50%.

Pescadores perdem espaço para os navios

O vice-presidente da Associação de Pescadores e Lavradores da Ilha da Madeira, em Itaguaí, Sergio Hiroshi Okashi, também questiona a legitimidade do estudo de impacto ambiental e critica a contaminação do mar. Segundo ele, em 2012 foi detectada uma quantidade maior de metais pesados na região do que a permitida. “Haverá maior circulação de navios e a área para pescar diminuirá ainda mais. A produção de lula caiu 80% desde que o porto foi instalado e, agora, pelo visto, vai acabar. A lula desova onde acontece o despejo dos metais pesados”, disse.

O secretário de Meio Ambiente de Itaguaí, Giovanni Kede, defende os pescadores: “Eles não vão virar metalúrgicos. Tem que se discutir o desenvolvimento das cidades e o porto. Não queremos o assoreamento das praias, manguezais e a foz do rio. Não é apenas o escoamento dos minérios. Vão ampliar a cabotagem, pois para entrar navios de grande porte o local deverá ter 25 metros de calado”.

?CSN: projeto criará 1.200 empregos

?Em nota, a CSN informou que o projeto de expansão do Tecar vai gerar 6.780 empregos diretos e indiretos durante as obras e 1.200 empregos na fase de operação. “Terá efeitos positivos no aumento da arrecadação de impostos, um acréscimo de R$ 360 milhões anuais”.

Sobre o processo de licenciamento, a empresa disse que corre seu curso natural junto aos órgãos responsáveis. “A CSN tem 22 programas ambientais e sociais em andamento para minimizar eventuais impactos do projeto, incluindo a proteção da fauna aquática e terrestre”.

A companhia ressaltou que vai monitorar todas as ações no período da obra, a fim de garantir a segurança do ambiente no entorno do terminal. Ainda segundo a nota, a audiência pública realizada em Itaguaí neste mês foi uma “prova da transparência e do compromisso de diálogo que a CSN quer manter com a comunidade”.

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