Por nicolas.satriano

Rio - Com apenas 20 mil habitantes, a pequena Porto Real, no Sul Fluminense, é rica em desperdício. Com água retirada parte do Rio Paraíba do Sul, parte do Rio Piá, a cidade não tem hidrômetros e moradores têm conta com valor simbólico, entre R$ 9 e R$ 11. Situação parecida acontece na vizinha Itatiaia. Ali, além de não haver hidrômetro, não há conta de água. O consumo é livre. Enquanto a região tem água à vontade, no Norte e Noroeste Fluminense, com pouca chuva, a seca se agrava, com grandes perdas para produtores rurais e ameaça ao consumo humano.

Questionada, a subsecretária de Meio Ambiente de Porto Real, Lorena Balieiro, afirma que já existe um plano para instalação de hidrômetros em toda a cidade seguindo para consulta pública e votação na Câmara de Vereadores. Para tentar reverter a imagem negativa em tempos de crise hídrica, a cidade lançou esta semana a campanha ‘Água Desperdício Zero’, numa rádio local. “Precisamos fortalecer na população a mentalidade de economizar água. Se souber gastar, não vai faltar”.

Em Pádua%2C onde o Rio Pomba chega a 32 centímetros%2C córregos secaram%2C arrasando a lavoura de PauloDaniel Castelo Branco / Arquivo Agência O Dia

Por mais que o valor pago pela água seja vantajoso para a maioria dos habitantes, há quem concorde com os hidrômetros. “A água é um bem de todos e seu uso precisa ser controlado para que seja preservada”, comentou o motorista Adalberto Venegre, 39 anos, do bairro Novo Horizonte.

Cercado por nascentes e mananciais da Serra da Mantiqueira, Itatiaia, com 30 mil habitantes, é um município “privilegiado”, pois não depende do Rio Paraíba do Sul. A água quase sempre cristalina, porém, não passa por nenhum processo de tratamento, além da cloração. Em alguns bairros, chega in natura. O serviço de distribuição é feito pela própria prefeitura, que diz reconhecer problemas no abastecimento do distrito de Penedo e de outras áreas mais afastadas.

Para o presidente do Conselho Estadual de Recursos Hídricos, Décio Tubbs, a falta de cobrança pelo uso da água é um erro. “O valor baixo da conta também é um grande problema. Alguém vai ter que pagar por essa grande quantidade de água consumida. Talvez seja eu, ou você. Todos têm de pagar pelo que consomem justamente, senão o consumo continua desenfreado”, afirmou.

Segundo ele, embora em pequena quantidade, parte da água que jorra livremente em Itatiaia e Porto Real poderia chegar a outros locais que precisam no estado. “Neste período de seca, qualquer pingo d’água que puder ser reservado é útil”.

Toda a produção perdida

É com tristeza que o produtor rural de Santo Antônio de Pádua, Paulo Ferreira Rodrigues, de 55 anos, vê toda a sua plantação de berinjela estragar. O córrego Recreio do Mota, que passava em frente a sua casa, secou. “Plantei 130 pés de berinjela. Perdi todas as 2.300 que eu pensava em vender por causa da falta de água. Meu prejuízo chegou a R$ 20 mil”, disse.

Dados da Emater-Rio indicam que cerca de R$ 408 mil foram perdidos nas lavouras de Pádua em 72 hectares, o equivalente a 72 campos de futebol. Os prejuízos no município chegam a mais de R$ 8,67 milhões. A cidade é cortada pelo Rio Pomba, que atingiu seu pior nível: 32 centímetros, como O DIA mostrou nesta quinta-feira.

“Só em um dia tivemos 28 pedidos de máquinas para abrir poços artesianos. Também estamos oferecendo caminhões-pipa. Os produtores têm bomba, irrigação, mas falta água. A prefeitura não tem capacidade para responder às demandas”, afirmou o prefeito Josias Quintal.

Reportagem de Vinícius Amparo e Eduardo Ferreira

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