Moacyr Luz: Singrando mares de histórias

Estou em Milão, aproveitando os dias de Europa, depois de shows em Montreux, cidade que já nasceu cartão-postal

Por O Dia

Rio - A música é meu passaporte, meu idioma, o brinquedo favorito pros dias solitários, você e seus planos de vida. Estou em Milão, aproveitando alguns dias de Europa, depois de shows em Montreux, cidade que já nasceu cartão- postal. Acho que todos os ricos que conheci na vida são mendigos neste balneário suíço. Sem exagero, esperei passar, num sinal de rua, dezessete Ferraris roncando, reluzentes feito os dentes dos seus condutores. Todos os seus sonhos de consumo cruzam a vista feito um delírio etílico, uma visão Daime, te possuindo num terreiro de vitrines enfeitiçadas. É ouro em pó, carne e osso.

O texto é música, tema do meu contentamento. As datas me confundem, tenho mais de 50 anos e já vivi dias de olhos abertos por 24 horas, madrugadas procurando novos acordes, destilados e vozes me surpreendendo. No Chico’s Bar, o duo era Nana Caymmi e Luiz Eça. Mais cedo, no Canecão, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Toquinho e Miucha engrenavam uma temporada de oito meses como se ali fosse realmente uma choperia com atrações no estilo preconceituoso, ao vivo. Meus cabelos eram negros, a juventude esguia. Meu mestre era Helio Delmiro, uma lenda viva nas cordas de um violão. Cambona, eu seguia seus passos, sombra fiel, aprendendo a cada aceno a postura da minha carreira.

Num desses passeios pelo sereno carioca, doses no Baixo Leblon, aonde, confesso, sempre fui um peixe fora d’água, Helio me leva pra conhecer a Boate 706. A memória falha no compasso principal: a voz no salão, Emílio Santiago ou Djavan? A única certeza: meu deslumbramento. Alguns risos nos bastidores e reparo a presença de uma luz divina, olhos bem redondos, graves e agudos em perfeita sintonia. Era Alcione. Nunca mais esqueci. O tempo passou. Falta uma hora pra eu cantar um samba no palco da Sala Stravinsky, Montreux, repito, ruas de quilates e um lago repleto de peixes dourados. Na coxia cruzo com Gilberto Gil e lembramos de Mico Preto, uma parceria minha com Aldir Blanc, gravada por ele em 1990. Gil se apresenta com João Donato, um gênio de 80 anos, no auge do reconhecimento. Modéstia à parte, também somos parceiros. Chamados pro palco, fico sozinho, aliás, eu e o meu navio de desejos. Alguém me pega pelas mãos. A placa do camarim indica: Alcione.

Um beijo de intensa admiração, sentamos juntos pra combinar nosso número no festival. Ela me dá uma camisa da Estação Primeira e eu retribuo com uma lágrima. Me chama de poeta, tamanha generosidade. Mal sabe que os versos são palavras que ela me ensinou a escrever desde o primeiro diário de bordo. E a vida segue, singrando mares de histórias.

E-mail: moaluz@ig.com.br

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