Jaguar: Ô rapaz? Ou rapariga?

Acho Laerte (ou Sônia) genial. Verissimo, numa crônica, compara suas tiras a uma composição do Schoenberg e resume o que também acho do atual trabalho de Laerte: 'Não entendi nada, mas adorei'

Por O Dia

Rio - Laerte, o grande cartunista que gosta de se vestir de mulher, ligou querendo marcar um papo comigo para o seu programa no Canal Brasil. Apesar de ter jurado nunca mais dar entrevista, a curiosidade foi mais forte: quem iria me entrevistar? Laerte ou Sônia, o nome que escolheu após a sua opção pela saia e pelo batom? Quando chegou (com oito assessores!), os viçosos cabelos caindo em novelos dourados até a cintura, num espetacular vestido de seda estampada, saudei-o com o meu costumeiro “Ô, rapaz!”. Toda a equipe, durante alguns segundos, congelou, menos Laerte, que esboçou um meio sorriso de Mona Lisa.

Comprovando a Lei de Murphy (“Quando você acha que nada de pior pode acontecer, acontece”), tentei consertar: “Ô, rapariga!”, comprovando também o ditado “A emenda é pior que o soneto”. “É a primeira vez que me chamam de ‘ô, rapaz!’, disse a louraça (com o penteado e sapatos de salto altíssimo,aparenta 1,80 metro, por aí ). “E eu, a primeira vez que chamo alguém de rapariga”, respondi, arrasado. “Se fosse no Nordeste, era no mínimo peixeira no bucho.” Outra coisa que preciso explicar melhor: quando disse que detesto dar entrevista — principalmente para tevê —, não é para esnobar. É que simplesmente travo, esqueço nomes, fatos; fico aparvalhado, um desastre. Mesmo sabendo que a maioria olha a tevê sem prestar atenção. Uma vez resolvi testar um sujeito que me parou na rua para dizer que tinha gostado muito de uma entrevista minha na tevê.

Mas não se lembrava do que falei (nem eu tampouco). Além do mais, acho Laerte (ou Sônia) genial. Verissimo, numa crônica, compara suas tiras a uma composição do Schoenberg e resume o que também acho do atual trabalho de Laerte: “Não entendi nada, mas adorei.” Ele (ela?) começou como eu vou acabar: fazendo cartuns. Apadrinhado pelo Henfil, logo se destacou pela qualidade do desenho e pelo humor perverso. Mas foi além, e não tenho a menor ideia aonde vai parar. Em tempo: entre Sônia e Laerte, escolheu o segundo. “Laerte é nome de homem e de mulher, como Darcy (Vargas e Ribeiro)”. Quem somos nós para discordar?

Últimas de Opinião