Jaguar: Paranoia bissexta

Agora o bissexto que vos fala completou 21 anos, o que significa que sou ‘dimaior’ em qualquer país do mundo

Por O Dia

Rio - Nem Freud explicaria por que me repugnam datas supostamente festivas, tipo Natal, Passagem de Ano e mais ainda comemorações pessoais, como aniversário. Por sorte, nasci em 29 de fevereiro: só faço aniversário de quatro em quatro anos. Quando chega o fatídico 29, tento me esconder, mas sempre quebro a cara. Para vocês terem uma ideia, vou contar as minhas três últimas frustradas tentativas de ‘desaniversário’: em 2008, 2012 e na segunda-feira passada. Em 2008, depois de muito pesquisar, optei por passar o dia 29 num hotel-fazenda no interior do Uruguai.

Ficava a quase seis horas de carro de Montevidéu. Ao chegar à recepção do hotel, bobeei e escrevi a data do aniversário na ficha. No jantar, um bolo com 76 velas pousou na minha mesa e um coro de “parabéns a você” veio do fundo do salão. Era um grupo de cariocas, que me conhecia da Banda de Ipanema. Em 2012, resolvi me esconder em Inhotim, a uns 60 quilômetros de Belo Horizonte. Lá fica a maior exposição de obras de arte ao ar livre da América do Sul (mais de 20 mil metros quadrados, iniciativa de um sujeito incrível, Bernardo Paz). É um lugar mais conhecido no exterior que no Brasil. Quando entrávamos no carro para pegar a estrada, chegou um amigo meu da Bahia com a mulher, especialmente para o aniversário. Cancelei a viagem. Outra tentativa fracassada. Agora o bissexto que vos fala completou 21 anos, o que significa que sou ‘dimaior’ em qualquer país do mundo, kkk — como kakarejariam “os idiotas a quem a internet deu voz” (Umberto Eco).

Este ano desisti de fugir: decidi me trancar no quarto, sem atender ao telefone, e só sair em março (pelo menos é mais barato). O que aconteceu? Verissimo publicou uma crônica, ‘29 de fevereiro’, onde relata que sou um dos quatro bissextos que descobriu numa pesquisa. Os outros são americanos e já morreram, mas, como ele disse, “o Jaguar está lá: cartunista, brasileiro, vivo e conhecido”. Normalmente, apesar de proibido de beber, eu abriria uma garrafa de uísque para comemorar ter sido citado pelo Verissimo. O problema é que todas as pessoas que conheço são, como eu, leitores e admiradores dele. “O que respondo a quem telefonar para dar parabéns?”, perguntou Célia. “Inventa uma desculpa.” “O Jaguar mandou dizer que não está!”, afirmava para quem se aventurava. Até agora estou ligando para todos, tentando explicar minha paranoia. Alguns mandam dizer que não estão. Em 2020 tem mais.

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