Luiz Antônio Simas: O trem fantasma

Pareceu-me que o trem-fantasma era incapaz de assustar um bebê de colo. Naquele dia eu cresci

Por O Dia

Rio - De certa maneira sempre encarei a vida como um trem-fantasma de um parque de diversões mequetrefe, daqueles que frequentei de calças curtas dezenas de vezes. Na infância, contava nos dedos os dias para o fim de semana. A ida ao parque era a atração dos sábados em que não havia gira no terreiro da minha avó ou jogo no Maraca.

As atrações eram variadas: a moça que virava Konga, a mulher-gorila, os famosos bate-bate, o bicho da seda, a montanha-russa malconservada, a roda-gigante, o tiro ao pato, o labirinto e o chapéu mexicano. A traquinagem neste último era comer uma gororoba capaz de nos fazer vomitar lá de cima, no voo enlouquecido das cadeirinhas, de modo a gerar o pânico entre os que, lá embaixo, corriam o risco de tomar um banho de porcarias conforme a sorte.

Mas era o trem-fantasma que causava em mim o popular frio na barriga. Em inúmeras ocasiões, lembro-me bem, parti para o parque com a firme convicção de que não entraria no trem-fantasma nem a pau. Argumentos contrários não me comoviam, e conselhos de mais velhos não me acalentavam: eu não entraria no trem-fantasma de forma alguma.

Bastava, porém, chegar ao parque que a coisa mudava de figura: ao trem! A criançada via o passeio, sem a presença dos pais, como uma espécie de rito iniciático; um mergulho destemido na escuridão cortada por barulhos e monstros aterrorizantes, subitamente iluminados no caminho para rasgar o breu de pânico divertido e berros agudos.

E lá ia eu, me preparando para o pior. Sentava-me no carrinho, segurava bem e fechava os olhos. Eu ia o passeio todo de olhos cerrados, sem abrir nem por um decreto. Sentia o balanço do carro, ouvia os gritos e imaginava criaturas abrindo os braços e as bocarras cheias de sangue para me pegar. Bruxas voavam no teto, mas eu sempre sobrevivia.

Um dia tomei coragem, abri os olhos no escuro e senti uma das maiores decepções da minha vida. Pareceu-me que o trem-fantasma era incapaz de assustar um bebê de colo. Naquele dia eu cresci. Parei de fechar os olhos para brincar no escuro, e a vida de adulto se tornou desencantada.

Um dia descobri que tenho glaucoma. Desde então, pingo duas vezes por dia um colírio que me nubla a vista por um tempo. Voltei a experimentar a sensação vertiginosa dos encantamentos do breu. Uma crônica não seria suficiente para contar aos amigos das maravilhas que ando a enxergar, fatigado da chatice real do trem-fantasma cotidiano, no meu flerte bonito com o escuro que imagino.


E-mail: luizantoniosimas67@gmail.com

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