Jaguar: Confesso que roubei

Os corruptos mandam grana para paraísos fiscais justamente porque a fiscalização — como o Brasil — é uma esculhambação

Por O Dia

Rio - Depois do Febeapá (Festival de Besteiras que Assolam o País), do insubstituível Stanislaw Ponte Preta, estamos mergulhados até o pescoço no Fedeapá (Festival de Delações que Assolam o País). E como assolam! Está, como a dengue, virando uma epidemia. E também ainda não inventaram uma vacina que evite o contágio.

Em Brasília, então, todos delatam todos de tudo. Premiadas ou não, as delações impressionam pelas cifras astronômicas. Num passado recente, derrubava-se um presidente por aceitar de propina¹ um carro popular. Agora Lamborghinis são usados como moeda de troca. Só se fala em bilhões, trilhões. E os eternos descontentes ainda reclamam que falta dinheiro no país. Vá lá, eternos descontentes, falta dinheiro para Educação e Segurança, afinal ninguém é perfeito. Mas sobra para subornos, pixulecos e contas em paraísos fiscais². Para contrastar, vou delatar a mim mesmo. Sim, confesso que roubei, como está no título acima.

Minha especialidade é roubar livros de hotéis. Alguns têm estantes com best-sellers em geral, mas de vez em quando deparo com preciosidades. O primeiro foi ‘Pergunte ao Pó’, de John Fante, num hotel em Búzios. Outro: ‘Memórias de um velho safado’, de Bukowski, num hotel em Natal. Em Mauá, furtei ‘Um Parque de Diversões da Cabeça’, em estupenda (primeira e última vez que usarei esta palavra) tradução de Eduardo Bueno e Leonardo Fróes. Por coincidência, uma trinca de escritores beberrões, não necessariamente nesta ordem. E ‘Quase Memória’, do Cony, afanei, acredite, num hotel em Roma. Li e reli durante uma viagem de 2.500 quilômetros pela Itália.

1) No meu tempo, a gente dava uma grana pra cerveja por pequenos favores, como o do guarda rasgar multa de trânsito. Agora é pra bebidas mais caras e muito mais sofisticadas: champanhe e pro-pina (colada), coquetel cuja receita dou para os leitores: numa taça bojuda colocar três doses de rum (sugiro um cubano envelhecido), uma dose de suco de abacaxi, uma dose de leite condensado, uma dose de leite de coco e seis pedras de gelo. Enfeitar com uma fatia de abacaxi na borda. Colocar a taça sobre um cofre cheio de dinheiro em espécie. 

2) Uma palavra contraditória, porque os corruptos mandam grana para esses paraísos justamente porque a fiscalização — como o Brasil — é uma esculhambação.

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