Luiz Antônio Simas: Futebol em tempo de Lava Jato

Na hora em que li a lista da Odebrecht, imaginei logo que daria uma escalação de grande sonoridade

Por O Dia

Rio - Quando era moleque acompanhei aventuras de um timaço da várzea de Vila de Cava, em Nova Iguaçu. A escalação mora na ponta da língua até hoje: Elizangela (era a cara da atriz); Camunga, Nem Fudendo, Mão Branca (zagueiro viril) e Tornado; Macaco, Capiroto e Corno Manso; Curupira, Abecedário e Aderaldo Miquimba.

O técnico, Seu Zezé Macumba, tinha dois princípios que norteavam o futebol praticado pelo esquadrão:

1- Jogador de futebol não pode entrar em campo com gel no cabelo, sobrancelha feita, sovaco depilado, creme de proteção facial, brinco de ouro, protetor labial e outros salamaleques. Zezé Macumba instruía os zagueiros a parar de escovar os dentes uns três dias antes de um jogo importante. O negócio era o zagueiro ter bafo de onça para intimidar o atacante. Beque tem que ter futum de carniça; feder feito presunto desovado.

2- Tem que ter apelido. Reza o mito que essa é tradição derivada do hábito nosso de se apelidar os praticantes da capoeira. Estamos agora, em tempos de futebol globalizado, sob a ditadura do nome e sobrenome. Já pensando em futura carreira no exterior, o garoto passa a ser chamado, por sugestão do empresário, de Wellington Souza e estamos conversados.

Andei me lembrando deste time do Vila de Cava na última semana por causa da circulação da lista da Odebrecht, mais um capítulo da relação promíscua entre empreiteiras e políticos; aquela que não perdoa quase ninguém. A lista, como os leitores sabem, vinha identificando vários parlamentares por apelidos. Na hora em que li, imaginei logo que daria uma escalação de grande sonoridade, um 4-3-3 capaz de resgatar a tradição dos nomes de fantasia nos gramados: Múmia; Nervosinho, Viagra, Passivo e Atleta; Lindinho, Próximus e Grego; Cacique, Comuna e Candomblé.

Passivo, como zagueiro, talvez complique o time, mas Viagra está ao lado para recuperá-lo. Próximus é discreto, mas faz o time correr. Candomblé é um ponta versátil, dribla e dá ótimos passes. Grego controla o meio de campo, joga e sabe bater. Nervosinho faz bons cruzamentos, mas vez por outra perde a compostura e se destempera. Não bastasse isso, no banco ainda tem muita gente da pesada. Escritor, por exemplo, é um veterano, quase aposentado, mas capaz de entrar nos últimos minutos para apimentar a partida.

O fato, amizades, é que no Brasil em transe dos dias atuais até vampiro anda tirando onda de moralizador do banco de sangue. Que saudades do timaço do Vila de Cava!

E-mail: luizantoniosimas67@gmail.com

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