Júlio Furtado: A pedagogia do erro

A escola precisa rever o conceito de erro e mudar a atitude de encará-lo como algo a ser eliminado a qualquer custo

Por O Dia

Rio - Dia desses fui à casa de um amigo e, em meio à conversa, seu filho de 10 anos pediu-me que verificasse se seu dever de casa estava certo. Respondi que sim e rapidamente ele me trouxe o caderno com as questões. Após ler suas respostas, disse que estava tudo certo, e ele perguntou: “Tem certeza? Respondi tudo com as minhas palavras, acho que a professora não vai aceitar.” Tentei convencê-lo de que uma resposta assim está mais certa do as que são copiadas do livro, mas sua preocupação era maior em responder o que sua professora queria, e percebi que, mesmo com as minhas argumentações, sua insegurança persistiu. Esse fato me fez pensar sobre a concepção de erro que a escola alimenta.

Errar não é o contrário de acertar, como muitos pensam. Erros podem traduzir aprendizagens, ou seja, é importante identificar e analisar os erros, pois eles, em geral, contêm dicas sobre o que devemos fazer para guiar os alunos para o acerto. Lembro-me de um exemplo real de um aluno que, ao ser perguntado qual é o contrário de vivo, respondeu que é TIM. Fica óbvia a interpretação que a criança fez. Outro exemplo clássico é o da criança que respondeu que o caminhão é o meio de transporte mais rápido. Ao ser questionado pela professora que afirmava ser o avião a resposta certa, disse: “Mas tia, o avião anda devagarinho lá no céu, e o caminhão passa rapidão na estrada!”. Não há dúvida de que esse menino sabe o que é “mais rápido”, o que temos aqui é uma questão de referencial.

A escola precisa rever o conceito de erro e mudar a atitude de encará-lo como algo a ser eliminado a qualquer custo. A escola precisa acolher o erro, pois lá é o seu lugar. Aprendemos mais e melhor quando nossos erros são levados em conta no processo de aprendizagem. Quem já errou e aprendeu com seus erros sabe mais do que quem nunca errou.

No caso do filho do meu amigo, temos outro estereótipo do erro. Quando a escola relaciona sempre a aprendizagem com reprodução exata do que aprendeu, o aluno fica inseguro diante da necessidade de produzir sua própria resposta. Como queremos formar pessoas críticas, empreendedoras e criativas, como consta nos Projetos Políticos Pedagógicos das escolas, através de metodologias rígidas que não permitem que as crianças corram riscos por causa do medo de errar?

Júlio Furtado  é professor e escritor

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