Carlos Alberto Rabaça: Estado de alerta na democracia

O discurso político alimenta, há anos, as esperanças de sempre, que se transformam em desilusões a cada final de mandato

Por O Dia

Rio - Os escândalos que ocupam o noticiário trouxeram para a vida dos brasileiros componente grave e duradouro: o medo de retrocesso na democracia. O repertório de práticas que, isoladamente, se configuram crimes passíveis de rigorosas punições, é aumentado a cada dia pelas revelações de novos delitos em tal profusão que chegam a se banalizar por saturação, na cobertura da mídia e na percepção da população.

O maior perigo deste cenário não está ligado à permanência de pessoas em seus postos públicos, nem mesmo à posição dos partidos no ranking do poder, mas à descrença nas instituições e nos princípios que alicerçam a vida social. Na crise está em jogo a própria democracia. A crença ou a descrença nos homens públicos ou nas instituições não são aquilo que dá sentido à democracia, e, sim, a participação dos indivíduos como sujeitos ativos no processo político, econômico e social.

O discurso político alimenta, há anos, as esperanças de sempre, que se transformam em desilusões a cada final de mandato e se reavivam a cada nova campanha eleitoral, em renovadas promessas proferidas pelos mesmos personagens, recauchutados pelo marketing político, ou por novos salvadores da pátria. E o que fazem os partidos? Que exemplos nos dão? Existem motivos para a recuperação da credibilidade no processo eleitoral e na representatividade das instituições? O brasileiro ainda acredita que o parlamentar no qual ele votou ajudará a melhorar o país?

A vergonha que hoje aflige o Brasil encerra lições que não devemos esquecer. Urge, pois, a reforma do Estado e, em decorrência, reforma política que legitime a atividade parlamentar para que os cidadãos possam respeitá-la, acompanhando a atuação de seus representantes e passando a participar responsavelmente de suas realizações.

Hoje, infelizmente, a percepção da sociedade em relação ao processo político está associada à mentira e à corrupção, germens que começam desfigurando as instituições e que trazem o grande perigo de desfigurar o próprio caráter do cidadão, contaminando toda a sociedade. Vivemos desvios e práticas degradantes em todos os setores que, através de denúncias nos meios de divulgação, nos fazem avaliar com energia e responsabilidade as causas da depressão em que estamos mergulhados.

Carlos Alberto Rabaça  é sociólogo e professor

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